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Era uma vez um pato gigante, que cansado de ir brincar atrás das montanhas, entediado da vida em condomínio e de um trabalho sem sentido, foi convencido de que era hora de participar da política.

Isso aconteceu em junho de 2013, diante das multidões que foram às ruas nas maiores manifestações populares da história do Brasil.
O pato não entendia o que estava acontecendo, mas queria participar.

A princípio virou a cara, chamou os manifestantes de vândalos baderneiros, vagabundos desocupados, seguindo a cobertura da mídia que o pato consome. As manifestações, porém, cresceram a ponto de que já não era possível negá-las ou atribuí-las exclusivamente a grupos progressistas.

Houve então uma virada na cobertura dessa mídia, e as manifestações deixaram de ser vistas como uma ameaça e passaram a ser encaradas como uma oportunidade.

Com o apoio do noticiário de guerrilha da mídia hegemônica e de direita, os protestos que inicialmente eram por mais direitos e contra as máfias das empresas de transporte público, foram reorganizados, divididos e esvaziados de sentido. Voltou-se à simples disputa partidária pelo poder.

Nesse clima ocorreram as eleições de 2014, que reelegeram Dilma Rousseff, ao mesmo tempo que formaram o congresso mais conservador da história brasileira. E a plutocracia teve assim certeza de que não importava o resultado da eleição para presidente, que isso poderia ser revertido.

Eles tinham a câmara e o senado a seu favor. Tinham patos ressentidos com a derrota de Aécio Neves e monopólios de mídia suficientes para levar multidões às ruas em domingos ensolarados. E mais importante de tudo, tinham um representante dentro da própria chapa eleita, na condição de vice.

Engana-se quem pensa que Eduardo Cunha foi a peça determinante no processo. Na verdade, ele representou um obstáculo.
As chantagens de Cunha na tentativa de salvar a própria pele atrasaram o processo. Fosse outro o presidente da Câmara, por via de regra alguém também ligado ao grupo majoritário, mas com uma ficha criminal menos extravagante, o impeachment seria ainda mais fácil.

O impeachment sempre foi uma questão de tempo. Uma corrida contra o tempo, já que era preciso esperar um pouco antes de acusar Dilma de qualquer coisa referente ao segundo mandato. Isso enquanto as investigações da Lava-Jato avançavam sobre muitos do grupo que permanecia à espreita para usurpar a presidência.

Enquanto o tempo corria em Brasília, os patos verde-amarelos iam às ruas quando convocados pela mídia hegemônica e por grupelhos oportunistas na internet, que os alimentavam de ódio. O pato então bradava contra a corrupção, o comunismo, o bolivarianismo, e exigia o impeachment.

O pato nunca quis saber de crimes de responsabilidade, decretos de crédito suplementar, pedaladas fiscais. Não foi por nada disso que ele foi às ruas. O que o pato sempre quis foi apenas voltar a ter sossego, e sabia que isso era impossível enquanto Dilma permanecesse no cargo.

A mídia que o pato consome não deixaria, e ele já não aguentava mais. Toda semana uma nova capa da Veja com uma bomba que nunca explodia, todo noite o tom fúnebre na voz de William Bonner, as expressões de nojo do William Waack. Não, o pato queria vê-los outra vez felizes, e assim saber que tudo ia bem, como na época da ditadura.

Milhões de patos à disposição de uma mídia hegemônica e plutocrática, um PMDB apavorado pela Lava-Jato e um congresso infestado de parasitas formaram a tempestade perfeita que derrubou Dilma.

Dilma e o PT subestimaram os monopólios de mídia, principalmente a Globo. Acreditaram que bastava continuar despejando 500 milhões de reais por ano em propaganda por lá, quando o que precisava ter feito era combater os monopólios desde o início, pelo bem da democracia.

Subestimaram o PMDB. Acreditaram que os antigos aliados não teriam a coragem de participar de algo tão sujo e desleal. Acreditaram que oferecer ministérios, estatais e diretorias diversas seria suficiente, quando o que estava em jogo para a cúpula do PMDB era a prisão.

Subestimaram a reação das elites contrárias a qualquer mudança, no sentido de garantir ao povo acesso a serviços básicos, que seriam obrigações do Estado segundo a Constituição, mas que para a elite são negócios.

O pato não faz parte da elite, mas gosta de pensar que faz.

No impeachment como a jornada fantástica dos patos verde-amarelos, o clímax está reservado ao momento em que a ficha cair.

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