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Tem muita gente puta da cara no Rio de Janeiro ultimamente.

Deve ter em todo o lugar, mas minha hipótese é que tem mais no Rio, ou tem mais nos últimos meses. E tem mais gente puta em Ipanema do que no Cantagalo.

Moro na divisa do bairro com a favela. Da janela lateral do quarto, vejo a subida dos moradores do morro e escuto mais gargalhadas e gente cantando funk do que gritos de dor. Isso, é claro, longe da polícia.

Já no asfalto e nos prédios vizinhos, a dor é mais comum.

Hoje começou logo cedo, com um vizinho que ouvia música eletrônica nas alturas, enquanto outro gritava “Abaixa essa merda, filho da puta! Abaixa essa merda, filho da puta!”

O vizinho que ouvia música não parece ter escutado os apelos da alteridade. Talvez escutou, não sei.

Os gritos vinham de muito perto, imagino que do andar de cima do meu prédio, e a música de mais longe, impossível saber de onde. Meu vizinho gritava então cada vez mais alto, cada vez com mais ódio, toda a sua impotência. Até que outro vizinho resolveu reclamar dos gritos: “Para de gritar, filho da puta!”

Os gritos pararam, a música continuou e eu fui trabalhar.

Ainda na esquina, uma velhinha fechou com seu Fiat Uno o cruzamento. Um homem de seus trinta e poucos anos, numa caminhonete importada, achou que buzinar freneticamente, psicoticamente, já não era o bastante. Abaixou o vidro para gritar: “Velha desgraçada! Suburbana! Filha da puta!”

O trânsito fluiu e a velhinha seguiu seu caminho sem olhar para trás.

Gosto de imaginar que ela fosse um pouco surda, ou que também ouvisse música alta e não tenha sequer percebido o homem. Que todo o ódio contido nas palavras envenene apenas aquele que grita.

Minha outra hipótese é que todo grito desse tipo é um grito de impotência. Que o ódio é sempre patético e impotente, quando extravasa em gritos. Mas que ainda assim, deve ter sua importância, ou a evolução já teria tratado de eliminá-lo.

É justo odiar um vizinho que coloca o som alto de manhã cedo ou uma velhinha que fecha o cruzamento. Talvez seja o ódio que nos separe das vacas, de um rebanho bovino que simplesmente aceita.

Não podemos simplesmente aceitar muitas coisas. Mas fazer do ódio um motor para ações e palavras livres de ódio, e assim mais potentes na busca do que acreditamos justo, parece a solução mais inteligente.

Respirar fundo ajuda, contar até dez antes de gritar pela janela. A solução mais efetiva, para além do impulso cego e impotente do ódio, surge espontaneamente do silêncio no autocontrole. Uma capacidade maior de escolher o que vale a pena odiar, e como lidar com isso, para quem sabe, de fato, conseguir algum efeito. Talvez seja isso que nos separe das vacas e dos vizinhos mais patéticos.

No Rio olímpico, de desocupações violentas para expulsar famílias pobres e construir arenas; de uma universidade estadual sem dinheiro para pagar os funcionários, e que, em greve, servirá de estacionamento olímpico, próximo ao Maracanã; de hospitais públicos piores do que clínicas veterinárias particulares, com escolas ocupadas e muito mais mortos pela polícia do que em atentados terroristas, o ódio será a maior herança das Olimpíadas. Precisamos saber lidar melhor com ele.

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