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Maria Joaquina de Orleans e Bragança de Carvalho pediu para ser enterrada com suas panelas. Nunca cozinhou na vida, mas as utilizava na varanda, em dia de protesto. Dizia  que eram suas melhores armas contra tudo o que está aí. Um instrumento sonoro e cívico, a serviço da pátria.

Bater panela e urrar palavrões sentado no sofá, em frente à televisão, tornou-se um rito quase religioso em tribos conectadas virtualmente pela revolta em nossos tempos. Ofereço esse relato então como registro histórico de um momento no Rio de Janeiro.

Próximo ao Hospital de Ipanema, só os que escutavam música alta, são surdos, ou contam com isolamento acústico ficavam livres das panelas e gritos da tribo de Maria Joaquina e de outras tribos, em rituais noturnos durante o horário político.

Vândalos de Le Creuset, Testemunhas do Jornal Nacional, Green and yellow blocs das selfies com a PM, pobres de direita. Batmans do Leblon ao Pontal que à noite combatem o crime sem sair de casa, por dez minutos antes da novela. Revolucionários como um poodle latindo pra ciclistas.

Eu não tinha escutado ainda as panelas, pois elas estavam distantes e eu ouvia música. Diminui o volume quando escutei os gritos de uma mulher: “Vai na rua reclamar, não fica em casa batendo panela. É o cúmulo fazer manifestação política do sofá, na frente da televisão!”.

Atravessado no horizonte, um urro se repetia como eco: “Filha da Puta!”

“É o cúmulo”, repetia a outra vizinha.

Se o meteoro cair durante um panelaço, que estranho cenário encontrarão os escafandristas.

Vestígios de uma civilização tecnológica e primitiva, dominada por selvagens bem vestidos. Zumbis de shopping Center entupidos de ansiolíticos, todos sob os escombros do progresso.

Maria Joaquina estava cansada. Das filas nos aeroportos, dos arrastões na praia em frente de casa, de ter que pagar o pato dos impostos, mesmo sem nunca pedir nada ao Estado, além de segurança pública. Sempre pagou escola particular, plano de saúde, taxi…, achava o cúmulo ainda ter que pagar imposto, principalmente a CPMF e a taxa sobre herança. “Papai trabalhou pelos filhos, não é justo”, reclamava revoltada.

 Sempre que vendia uma de suas propriedades lembrava de seus antepassados portugueses e chorava de saudade.  Queria apenas que tudo voltasse a ser como antes, como nas suas lembranças de juventude, entre o Clube Militar e a praia de Ipanema, antes da chegada do metrô à zona sul.

Morreu com 100 anos, abraçada às panelas. Escorregou nas próprias lágrimas, enquanto tentava chutar a imagem na televisão.  Caiu e não levantou mais. Faziam-lhe companhia duas empregadas que eram quase da família. 

(na foto Lolo, a paneleira, criação da artista Luanna Teófilo)

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