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É adolescente, não tem dinheiro e mora longe, logo não pode ir à praia.

A lógica é do secretário de segurança pública do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame.

Como vão sair de Nova Iguaçu, a 30 km da praia mais próxima, sem um real no bolso? Eles que fiquem por Nova Iguaçu, acredita o secretário, que tem o apoio do governador Pezão.

É esse também o sonho de boa parte dos que moram perto do mar ou tem dinheiro para ir de taxi. Famílias tradicionais que esperam que a praia seja a extensão do seu condomínio.

Mas o mundo é diferente do lado de fora e milhares de adolescentes de favelas distantes continuam chegando mesmo sem ter um real no bolso. Mesmo que o secretário de segurança, o governador ou justiceiros com personal trainer digam a eles para ficarem em casa.

Você ficaria se vivesse numa favela em Nova Iguaçu, a 40 graus na sombra e nunca tivesse dinheiro nem para ir à praia no fim de semana?

O fato é que muitos não ficam e contam com o medo ou a desobediência civil de cobradores e motoristas de ônibus.

A ideia do secretário de segurança é que a polícia faça então o que os cobradores e motoristas não conseguem ou não querem fazer. Mas ocupar todos os pontos de ônibus que levam às praias e passam por lugares cheios de adolescentes sem dinheiro parece impossível também para a polícia.

É preciso o apoio de outros poderes públicos para diminuir o número de linhas, fazê-las parar em pontos estratégicos e facilitar a triagem e a revista dos que podem ou não seguir viagem.

Ainda não há notícias de que o secretário já tenha estipulado o valor mínimo que um adolescente terá que carregar para ir à praia, mas a ordem é apreender aqueles que estejam em situação de “vulnerabilidade”. Com essa palavra o secretário tenta driblar a lei que impede que pessoas sejam detidas sem qualquer denúncia ou flagrante.

O secretário se diz preocupado com o que esses adolescentes irão comer e beber longe de casa, então talvez também os obrigue a levar um lanchinho.

Ou ainda assim serão detidos?

Se forem, o apartheid se torna oficial, com o apoio do governador e contra a Constituição. Mas é improvável que isso aconteça.

A hipocrisia ainda é maior que o fascismo no Rio de Janeiro, e as justificativas do secretário para a segregação são quase fofas.

O fato é que a violência chegou a um ponto em que não há solução a partir da polícia, e por isso o secretário se vê numa situação em que precisa dar uma resposta à sociedade, mas não tem nenhuma.

Seria uma declaração mais honesta dizer que assaltos continuarão a acontecer em toda parte e não há nada que ele possa fazer. Que é gente demais vivendo em condições desumanas, gente que nem a liberdade tem a perder, pois não é livre se não pode sair da favela. Como o secretário poderia então ameaçá-los?

O máximo que pode prometer é que se esforçará para manter a violência restrita aos bairros distantes da praia, mas é lá onde mora a maior parte da população.

Muitas vezes a família da empregada que prepara o whey protein do justiceiro ou os ternos do governador. Ou mães desempregadas, que recebem o bolsa-família para não morrer de fome, mas não tem dinheiro para que os filhos cheguem à praia.

Pois deveriam então poder ir de graça, parece evidente. Ainda mais que o dono da empresa de transporte ostenta em casamentos milionários no Copacabana Palace ou financiando campanhas políticas.

Dinheiro suficiente para a passagem de milhares de adolescentes pobres de favelas distantes que sonham em ir à praia no fim de semana e não podem.

Você não gostaria que eles fossem e sentassem ao lado da sua família na areia?

O fato é que já não há tantas praias no Rio de Janeiro, como num passado recente de natureza preservada e com metade da população. É difícil encontrar lugar em Ipanema num domingo de Sol, e o metrô chega ano que vem ao Leblon, junto com as Olimpíadas.

O fascismo encontra um terreno perigosamente fértil no litoral carioca, e a guerra urbana continua sem qualquer perspectiva de mudança, ao menos a julgar pelas estratégias apresentadas por justiceiros ou pela secretaria de segurança.

São refugiados muitos dos adolescentes que aparecem nas praias.

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