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Botar a cara no sol e praticar nado sincronizado nas lágrimas das inimigas. Pois sambar é preciso, e viver é muito mais perigoso se você é transgênero no Brasil.

A expectativa de vida por aqui gira em torno dos 35 anos, e talvez isso favoreça o aparecimento de uma figura arquetípica, que encontra em Romagaga e MC Transnitta duas de suas melhores intérpretes, na comédia, no drama ou no funk.

Romagaga é a personagem criada pela artista cearense que nasceu Romário, e que viralizou na internet em vídeos alucinados em que conta histórias cotidianas despudoradas ou dá conselhos às amigas que gastam o que não tem sustentando gigolôs ou na macumba para trazer a pessoa amada.

Tem mais de 500 mil seguidores em redes sociais, mesmo com os perfis apagados várias vezes pelas inimigas.

Já MC Transnitta é um sucesso no mundo do funk carioca, com apresentações que lembram funkeiras cis de sucesso, como Anitta e Ludmilla. Viveu nas ruas e hoje mora na comunidade do Piscinão de Ramos, no Rio de Janeiro, onde hospedou Romagaga depois que a amiga foi espancada por vários homens em uma boate em Fortaleza.

Ensanguentada e atirada no chão, Romagaga conta em um vídeo que viu os policiais chegarem ao local, olharem para ela, rirem e comunicarem seus supervisores que a ocorrência era só uma briga de travesti.

Foi então que decidiu passar um tempo no Rio de Janeiro, e do encontro com MC Trans no Piscinão de Ramos surgiu o seriado “Donas da Favela”, uma obra-prima do deboche, uma ode sublime à hipocrisia das inimigas vulgares sem ser sexy.

A trama é desenvolvida a partir de um concurso de beleza, o Garota do Piscinão, do qual as amigas travestis decidem se irão ou não participar. Foram convidadas por Alessandra Cariucha que na vida real viralizou na internet num vídeo em que contesta o resultado da disputa Garota da Laje.

A metanarrativa é explorada com maestria e as três analisam os rumos das respectivas carreiras no mundo real, ao mesmo tempo em que apresentam um jogo de intrigas e sonhos na busca pelo título de Garota Piscinão.

O tom é de farsa e elas parecem saber rir delas mesmas como poucos, e também apresentar um mundo talvez nunca visto em séries da Globo ou da Record, em que a travesti celebridade da favela é criada pelo olhar do diretor que não vive e nem nunca viveu numa favela, e não é travesti.

Não há diretoras travestis, e atrizes ou artistas transexuais em geral são raríssimos na televisão brasileira. Quando necessário representá-lxs, o elenco cis faz workshops intensivos, mas muitas vezes a interpretação ainda deixa a desejar.

Seria difícil entender por que não escolher uma travesti para interpretar uma travesti, não fosse a discriminação tão explícita. Mas com isso perde-se um tanto da autenticidade que Donas da Favela esbanja, sem nunca se levar a sério.

As falhas são mais do que evidentes, ou mesmo exploradas, a produção é caprichosamente tosca, numa estética realista ao mesmo tempo que absurda.

E o que está em jogo em Donas da Favela é justamente as fronteiras, entre ficção e realidade, entre gêneros e identidades, e assim a série transcende o hilário e se torna arte.

Grande arte de vanguarda, feita por travestis a quebrar barreiras diretamente do Piscinão de Ramos. E o estranho nisso é travestis nunca aparecerem nos cadernos de cultura.

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