Home

nietzsche-buda-schopenhauer

No livro I da República, Platão levanta a questão de que se caso pudéssemos ser invisíveis, o que nos impediria de fazer o que bem entendêssemos? Qualquer possível retaliação às injustiças que cometêssemos seria impossível e todo objeto que desejássemos estaria ao nosso alcance, independente de pertencer a outro.

Para Trasímaco, um dos personagens desse diálogo, a vontade de todos frente a tal situação seria tomar para si o que não lhe cabe por direito legítimo e afirma a partir disso que aqueles que criticam a injustiça, não o fazem por receio de praticá-la, mas apenas por temerem sofrê-la.

Os argumentos utilizados por Platão para negar essa afirmação e estabelecer a justiça como um bem em si são muitos e aqui não serão apresentados. Responderemos a pergunta por outro caminho, tendo como referência os ensinamentos de Buda e a filosofia de Arthur Schopenhauer.

A base da ética schopenhauriana é a mesma apresentada no Budismo, ou seja, a compaixão. Ambos os sistemas estabelecem a justiça como um bem em si a partir desse fundamento e justificam o comportamento compassivo também de modo semelhante.
Para os budistas a compaixão é o resultado natural do entendimento correto da existência, fruto do insight que elimina a dualidade entre sujeito e objeto e reconhece a natureza última da realidade, chamada de shunyata, ou vazio.

“Vazio é forma e forma é vazio”, diz um dos principais ensinamentos de Buda. Nada possui origem isolada ou uma entidade fixa que se possa reconhecer como de fato sendo o objeto. Todos os fenômenos são interdependentes e estão em constante mudança, sendo a existência nesse mundo, como o próprio Platão também afirma, “um eterno tornar-se sem jamais ser”, resultado de infinitas possibilidades combinadas e recombinadas sob a lei da causalidade.

No caso da simples matéria, a confirmação desse fato é bastante evidente. Todo objeto só existe sob determinado aspecto durante certo período de tempo, não importa a substância de que seja constituído. Tudo se desintegra, mas nada desaparece, e de acordo com as forças da natureza que atuam sobre a matéria, ela volta a ser reordenada em um processo que se repete ciclicamente.
Em relação aos seres vivos – especificamente à essência que move os seres vivos, já que o corpo obviamente segue o mesmo destino do restante dos objetos – a percepção dessa ausência de entidade exige maior esforço, sendo a própria mente do ser que possibilita a matéria de se apresentar sob infinitas formas.

Para os budistas, você não é a personalidade criada ao redor do ego e que se reconhece como indivíduo, também não é suas memórias, habilidades ou esperanças. Na verdade “você” não pode ser definido nem encontrado em lugar algum e a nossa habitual noção de “eu” é uma ilusão. A personalidade egóica se forma a partir da união de causas e efeitos, condicionamentos e experiências também em constante transformação e cuja natureza última é o vazio, shunyata.

É possível percebê-la em parte ao suspender o fluxo contínuo de pensamentos discursivos auto-infligidos, ao esquecer apegos e desejos, os quais o Budismo reconhece como causa de todo sofrimento, de um contínuo estado de insatisfação (Dukkha), mantido por razões diversas que sempre se originam a partir desses fatores e se manifestam principalmente sob quatro formas: a falta de algo que despertou o nosso desejo; o medo de perder aquilo que conseguimos; porque temos algo que parecia muito bom, mas agora não é tanto; porque temos algo que queremos nos livrar e não conseguimos.

Ao libertar a mente do apego a esses fenômenos impermantentes, abre-se espaço à simples presença meditativa não conceitual e assim a existência cíclica de nascimento e morte, chamada pelos budistas de Samsara , releva-se então como um jogo de espelhos em que um indivíduo reflete no outro a mesma e única natureza presente em todos, a natureza búdica, que se encontra obstruída por toda espécie de sofrimentos instalados na mente pela ilusão do ego.

É o estado de pureza mencionado no texto clássico budista Dhammapada, que afirma que “todas as coisas têm como precursoras a mente, são feitas de mente, se um homem fala ou age com mente pura, em consequência a felicidade o segue, como a sombra que jamais dele se despede”.

Remover essas máculas mentais passa a ser então o trabalho dos budistas para conseguir estabelecer a mente no momento presente, em uma condição além dos desejos e esperanças. Assim experimentam a percepção de uma instantaneidade primordial que ultrapassa qualquer possibilidade de racionalização. Encontram uma fonte inesgotável de paz e felicidade.

Nesse estado, o conhecimento surge espontaneamente, assim como a compaixão ilimitada e a empatia absoluta. A mente abarca todos os fenômenos como sendo parte integrante de si mesma e não se apega a nenhum deles, reconhecendo a vacuidade e a impermanência em todos. O intelecto então não dita mais as ações, não julga nem procura por objetos exteriores e fantasias, não aprisiona o ser nos limites do ego.

Buda ensina que para alcançar esse estado é necessário compreender a real natureza da existência, realizar a vacuidade, assim como eliminar os sentimentos negativos e os desejos. Desse modo, não prejudicar os outros se torna fundamental e uma espécie de termômetro para a prática da vida budista, sendo que toda ação que vise apenas ao próprio bem-estar sem considerar o do próximo revela o apego às ilusões e a contínua possibilidade do sofrimento. Por outro lado, ações movidas por compaixão fornecem um acumulo de méritos necessários para se alcançar o estado iluminado e à medida que se avança nas práticas, colhem-se os frutos dos atos virtuosos. Assim os budistas encontram um fundamento para ações morais necessariamente justas, quando próximos da iluminação, de modo totalmente empírico, e se distantes, por acreditar ser esse o comportamento que conduz a budeidade.

Já para trilharmos o caminho proposto por Schopenhauer na sua ética baseada na compaixão, é necessário antes compreender as distinções realizadas pelo filósofo entre o fenômeno e a coisa-em-si, temas da filosofia kantiana, de onde Schopenahauer parte nas suas investigações.

A essa essência do mundo, chamada por Kant de coisa-em-si, que seria incognoscível ao ser humano por fugir às formas puras da sensibilidade, o espaço e o tempo, Schopenhauer dá o nome de Vontade, algo que se objetiva sem cessar e tem no mundo fenomênico a sua representação.

O filosofo propõe uma profunda síntese entre sujeito e objeto, um não existindo sem o outro, toda realidade, portanto, inseparável dos mecanismos de apreensão do sujeito. Desse modo afirma que “não se pode conhecer nem um sol, nenhuma terra; mas apenas olhos que veem este sol, mãos que tocam esta terra; (…), o mundo ao redor existe apenas como representação, na relação com um ser que percebe.”

Porém ao contrário de Kant, Schopenhauer acredita que a essência do mundo também pode ser conhecida pelo sujeito através das ações do próprio corpo. No mundo como representação, o corpo é o objeto imediato da vontade, que no ser humano alcança seu grau mais elevado e esta lhe fornece a chave da compreensão de seus movimentos, mostrando-lhe a engrenagem interior de seu ser, assim como a de todo o universo.

“(…) quem, ia dizer, alcançou esta convicção [da Vontade como núcleo da consciência humana] obterá comigo uma chave para o conhecimento da essência mais íntima de toda a natureza (…) Reconhecerá a mesma vontade como essência mais íntima não apenas dos fenômenos inteiramente semelhantes ao seu, ou seja, homens e animais, porém, a reflexão continuada o levará a reconhecer que também a força que vegeta e palpita na planta, sim, a força que forma o cristal, que gira a agulha magnética para o polo norte, que irrompe do choque de dois metais heterogêneos(…) sim, tudo isso é diferente apenas no fenômeno, mas conforme sua essência em si é para se reconhecer como aquilo conhecido imediatamente de maneira tão íntima e melhor que qualquer outra coisa e que, ali onde aparece de modo mais nítido, chama-se vontade”

Sendo a Vontade a realidade metafísica imanente em tudo o que existe, algo, portanto, uno, que escapa às condições de tempo e espaço – categorias, por sua vez, essenciais ao conhecimento de qualquer objeto externo e que se apresentam a priori na intuição do sujeito, esse mundo dos fenômenos se revela a nós como uma espécie de ilusão, o “véu de Maya”, citado por Schopenhauer diversas vezes em referência às alegorias das tradições orientais.

A pluralidade do que é um e mesmo se dá pelo que o filósofo chamou “princípio de individuação”, mas em cada fenômeno representado nesse processo a Vontade permanece inteira, vendo em torno de si “a imagem inúmeras vezes repetida de sua própria essência”.

É esse equívoco oriundo da dicotomia entre a realidade una da coisa-em-si e o modo como os fenômenos se apresentam que nos distancia do outro para afirmar uma individualidade apenas circunstancial, escravizada pela Vontade e iludida pelo ego. Porém o mais trágico da afirmação consiste na gratuidade absoluta de todos os esforços feitos para satisfazer algo por natureza insaciável.
“Qualquer alegria excessiva (exultatio, insolens laetitia) deriva sempre da ilusão que nos faz crer que encontramos, na vida, algo que nunca se encontra, ou seja a satisfação durável dos desejos, ou a calma definitiva das inquietações que nos torturam e que se renovam sem trégua. Qualquer ilusão deste gênero nos será tolhida infalivelmente mais tarde e então lhe pagamos a perda com tanta dor, quanta fora a alegria que nos dera.”

A vida desse modo se apresenta como uma tarefa a ser cumprida, garantir o suprimento de matéria necessária para o corpo continuar a existir enquanto fenômeno da Vontade. Por isso o bem-estar do indivíduo nada significa e a miséria se manifesta sob tantas formas, sendo a única preocupação real da Vontade a perpetuação das espécies, garantida pelo impulso sexual. Para esse processo Schopenahauer oferece uma imagem assaz perturbadora, inspirado nas ideias platônicas.

“É verdade que a forma do corpo dura por um tempo, mas apenas sob a condição de que a matéria esteja sempre mudando, de que a velha matéria seja descartada e uma nova seja incorporada. É o principal empenho de todas as formas viventes assegurar um constante suprimento de matéria aproveitável. Ao mesmo tempo, estão conscientes de que sua existência é modelada de modo a durar apenas um período de tempo, como foi dito. Por essa razão tentam, quando estão abandonando a vida, deixá-la para outrem que tomará seu lugar. Essa tentativa toma a forma do instinto sexual em autoconsciência, e na consciência de outras coisas apresenta-se objetivamente — isto é, na forma do instinto genital. Esse instinto pode ser comparado ao enfileiramento de uma corrente de pérolas; um indivíduo sucedendo o outro tão rapidamente como as pérolas na corrente. Se nós, em imaginação, acelerarmos essa sucessão, veremos que a matéria está mudando constantemente em toda a fileira assim como está mudando em cada pérola, enquanto retém a mesma forma: percebemos então que temos apenas uma quase-existência. Que são somente as Ideias que existem e criaturas-sombra daquilo que lhes corresponde”

Schopenahauer parece tentar, em boa parte de seus escritos, convencer de que a vida não vale o esforço. Algumas passagens revelam inclusive um certo humor, ao estilo “cômico se não fosse trágico”, de um pessimismo elevado ao absurdo, como um caminho para o ser que só ao atingir seu mais profundo abismo pode arrancar completamente as raízes do seu sofrimento. Em Parerga e Paralipomena, encontram-se algumas de suas mais enfáticas manifestações de desprezo pelo conjunto da vida, seguem alguns exemplos:

“É de enlouquecer a contemplação dos esforços exagerados, das inumeráveis chamejantes estrelas fixas no espaço infinito, com nenhuma outra obrigação a não ser iluminar mundos que são palco da necessidade e da miséria e que no melhor caso nada oferecem senão tédio; ao menos a crer no corpo de prova a nós conhecido. Ninguém é mui invejável, mui deploráveis são muitos.”

“A vida constitui uma tarefa a ser realizada: neste sentido defunctuns é uma bela expressão.”

“Quando dois amigos de infância, apos a separação de toda uma geração vivida, se encontram como anciães, a impressão predominante que sua própria visão estimula reciprocamente, porque a ela se prende a lembrança de tempos passados, é de todo o desapontamento sobre o conjunto da vida, tão promissora na rósea luz matinal da juventude, e que tão pouco se cumpriu. Esta impressão domina tão decididamente o seu reencontro, que nem consideram exprimi-la em palavras, mas pressupondo-a reciprocamente, prosseguem a falar tendo-a por base”

Ao reconhecer essa natureza trágica da existência, Schopenhauer enxerga na superação da vontade egoísta, que em um primeiro momento assume a forma de compaixão, a única saída.

O egoísmo representa um grau elevado da ilusão causada pelo princípio de individuação e a injustiça derivada do egoísmo, afirma o filósofo, é a negação da vontade que se manifesta em um indivíduo, imposta por outro.

. “A vontade de um foge aos limites em que se afirma a vontade do outro, seja ofendendo ou destruindo o corpo deste, seja constrangendo as forças de tal corpo a servi-la em lugar de servir o corpo em que se manifesta”.

Essa dualidade, porém, em última instância, é ilusória, não sendo possível causar sofrimento a outro ser sem que isso também nos faça infelizes.

O sofrimento do outro pode representar para nós um prazer em si, chamado por Schopenhauer de “alegria maligna”, ou visar a satisfação de um desejo próprio qualquer. Ambas são afirmações da violência com que a Vontade aflige o indivíduo e de como este enxerga nos outros apenas meios para atingir seus objetivos, que ao serem finalmente alcançados nada mais significam.

Por outro lado, com a distancia entre o eu e o outro reduzida – ou eliminada, no caso de uma vitória completa frente à ilusão reconhecida no princípio de individuação – o sofrimento do outro passa a ser o próprio sofrimento, assim como o seu bem-estar. Em Schopenhauer, o bem-estar só pode de fato ser mantido com a vitória absoluta sobre as ilusões e o ego, sendo a compaixão uma espécie de paliativo, que reduz as dores impostas pela inalcansável satisfação plena dos desejos, ao nos proporcionar a experiência de unidade com outros seres e diluição do ego. Com isso o indivíduo aproxima-se de um estado de “boa consciência”, uma satisfação oposta diretamente ao peso que recai sobre o ser que pratica a injustiça.

As semelhanças com o Budismo nesse ponto já são muitas. Em ambos a compaixão representa a ação natural do indivíduo que não mais se reconhece apenas como tal e também tanto na visão budista quanto schopenhauriana, o estado final, o apogeu de toda prática, dá-se pela extinção completa dos impulsos do querer e da vontade egoísta.

No campo da ética e da justiça, pode-se afirmar que Schopenhauer e Buda concluíram a mesma coisa, por caminhos semelhantes e a partir disso propuseram a mesma inversão total do modo como a razão humana é utilizada. Seu sofisticado aparato de ferramentas lógicas, abstrações e conceitos, ao deixar de servir a Vontade e o ego, de buscar eternamente novos meios de satisfazê-los, para, ao invés disso, dedicar-se à investigação da própria natureza do ser que deseja, revelaram, nas palavras de Schopenhauer, um “pêndulo que oscila entre o sofrimento e o tédio”, nas de Buda, que toda existência é sofrimento.
Contudo, se nos atermos a essas definições, tanto o budismo quanto a filosofia de Shcopenhauer parecem doutrinas pessimistas, quando na verdade o que propõem é que é possível a superação absoluta do sofrimento, podendo assim ser consideradas na verdade extremamente otimistas.

Isso fica evidente nessa passagem de Schopenhauer:

“Podemos ver o homem que atingiu a negação do querer-viver, por quanto pobre e triste, por quanto cheia de privações lhe seja a sorte, julgada pela aparência, gozar da mais pura beatitude interna, numa calma verdadeiramente celestial. Não há nele nem a satisfação agitada que traz a atividade vital, nem os transportes de alegria de que a cessação duma dor é sempre a condição preliminar, ou de que uma dor futura é sempre o resultado necessário, coisas que constituem a existência do homem ávido de viver; não! há uma calma inalterável, uma paz profunda e uma serenidade íntima. Há um estado que não podemos contemplar sem inveja quando se apresenta à nossa vista ou à nossa imaginação, porquanto sentimos logo que tal condição está por tudo acima do mundo e que nela se contém a verdade”.

No Budismo, tal condição é alcançada na iluminação, e buda significa aquele que despertou para isso.

Desse modo, tanto o Budismo quanto Schopenhauer responderiam a Trasímaco afirmando a Justiça como algo válido em si mesmo, como condição necessária a uma vida plena, e que deve ser buscada independente de qualquer contrato ou obrigação. Em última instância, algo natural ao ser humano que se libertou das ilusões, e cuja ética se baseia em algo muito mais profundo do que as leis oficiais, muitas vezes injustas.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s