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O secretário de Estado do Vaticano, Pietro Parolin, disse que o resultado do plebiscito na Irlanda que aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo é uma “derrota para a humanidade”.

A posição do secretário, porém, não é a mesma de muitos católicos, e isso ficou bastante evidente na Irlanda, um país em que quase 90% da população se declara católica.

Mas é evidente também que o plebiscito não é o melhor caminho para aprovar o casamento homossexual, já que a maioria não tem por que se meter num direito de minorias que em nada lhes prejudica, e a questão sequer deveria ser discutida. Só é em países atrasados, em que a religião ainda se mistura ao Estado.

No caso do Vaticano, a religião é o Estado e por isso seria interessante, ao menos para demonstrar o quanto a Igreja está dividida.

O próprio Papa Francisco costuma dar declarações muito mais tolerantes, assim como o padre Fábio de Melo, o teólogo Leonardo Boff e tantos outros.

A declaração do secretário representa assim muito mais o momento de transição pelo qual a Igreja Católica atravessa, do que uma reafirmação do poder de seus membros mais conservadores.

Tem sido assim há muito tempo, e o grande mérito dessa instituição milenar é justamente conseguir se adaptar a novos tempos, fazendo com que a humanidade lhe perdoe todos os pecados.

É bastante impressionante que uma instituição que perseguiu e matou milhares de pessoas inocentes, defendeu a escravidão, protegeu pedófilos, dizimou civilizações, que foi desmentida pela Ciência tantas vezes, que queimou livros e construiu palácios de ouro com riquezas surrupiadas, tenha conseguido sobreviver.

Mais impressionante ainda pelo fato de que essa instituição afirma manter contato direto com o Divino, que seus líderes são representantes de Deus na Terra.  Como Deus poderia estar errado tantas vezes?

É bastante difícil então compreender como acreditar que a Bíblia e a Igreja detenham o monopólio da Verdade e da revelação divina, que devem ser seguidas com fé absoluta, mesmo quando já se considera que isso não pode mais ser.

O pensamento utilizado pelos fiéis para superar esse paradoxo parece conter alguma sutileza semelhante ao que George Orwell chamou de duplipensar: defender simultaneamente duas opiniões opostas, sabendo-as contraditórias e ainda assim acreditar em ambas. No caso, acreditar numa verdade absoluta e sujeita a equívocos.

Como é feita essa manobra mental de induzir conscientemente a inconsciência, e então, tornar-se inconsciente do que se acaba de realizar permanece um mistério.

Mas é por essas e outras que muitos desconfiam que boa parte da Bíblia tenha sido escrita na verdade para justificar uma certa ordem, manter essa ordem numa época em que a aristocracia aceitava a escravidão, em que as mulheres eram submissas, e que as populações por serem dizimadas em constantes guerras e epidemias, precisavam que homens e mulheres gerassem o máximo de filhos possíveis.

Acredito também que escravos gays que não se reproduzissem perderiam muito o seu valor e que famílias com bastantes filhos eram vantajosas para o trabalho nos sistemas feudais e  reinos absolutistas, em que o rei era outro escolhido por Deus.

A situação complica porque na medida em que o mundo se transforma, em que o desafio se torna a redução da taxa de natalidade, em que os reis são depostos, em que a razão e a ética humana estabelecem limites menos tolerantes para a barbárie, ou a ciência derruba por completo algum dogma, as igrejas são obrigadas a esquecer o que diziam antes e se adaptar outra vez ao cenário, como parece acontecer agora em relação aos direitos dos homossexuais.

Mas elas geralmente demoram muito tempo pra mudar de ideia sobre o que quer que seja que tenham afirmado – vide Darwin e a evolução das espécies, que algumas provavelmente não aceitarão nem se uma macaca parir um ser humano e também a Terra girar ao redor do Sol, que só aceitaram depois de não haver mais como negar e da Igreja Católica tentar queimar todos os que diziam isso.

O que é totalmente compreensível, já que cada vez que o duplipensar tem que ser aplicado, muitos fiéis são vencidos pela lógica e a igreja perde poder.

Considero então que a sacralização da Bíblia possa ter sido apenas uma ideia genial a serviço de uma aristocracia em busca da manutenção do poder estabelecido. Inventou-se assim um sistema de vigilância muitos mais potente do que o Estado, este sendo criado depois a sua imagem e semelhança.

Nele o ser mais poderoso de todo o universo observa a tudo e a todos o tempo inteiro, em qualquer lugar, inclusive em pensamento, e que se não forem feitas as suas vontades explicadas na Bíblia, ele não mais nos defenderá de outro ser, não tão forte só que muito mais malvado e que quer você como escravo num lugar pegando fogo.

Por outro lado, o ser mais poderoso,  o filho dele e todo o resto da família te amam muitíssimo, suprem todas as suas carências e não só te salvam desse trágico destino, como te esperam num paraíso eterno (que não parece muito bem definido, o que me faz pensar que seja na verdade a ameaça do inferno que conquiste os fiéis) se você aceitar as condições impostas.

A principal delas é acreditar que isso seja verdade.

Questionar que possa ser mentira é uma das coisas proibidas, buscar argumentos contrários então, inferno na certa, e por isso religião não se discute.

Mas sendo religioso o único argumento homofóbico, parece-me que caso as igrejas novamente sejam obrigadas a mudar de opinião e reconhecer outra vez que estavam erradas, o prejuízo já terá sido grande demais, intolerável, causa de um sofrimento desnecessário para muitos bilhões de pessoas em séculos de perseguição, entre elas grandes ídolos e gênios como Leonardo da Vinci, Rimbaud, Wittgenstein, Foucault, Tchaikovsky, Wilde.   E por isso não é uma tarefa fácil.

Creio também que se o Estado hoje não tivesse nada de religioso, a homossexualidade poderia ser incentivada, como forma de controle populacional, e o mundo seria um lugar melhor. O que eu não acredito é que a orientação sexual pode mesmo sofrer influência determinante por meio de incentivos e não reprimir parece suficiente.

Mas nos livrar no futuro da programação mental, social, genética ou o que quer que nos leve a escolher entre os sexos parece bastante tentador, o amor livre para se manifestar entre todos os corpos. Desconsidere a ameaça do castigo divino nos moldes de Sodoma e Gomorra a se abater sobre todos os que não sejam heterossexuais e exclua também a possibilidade de um espancamento com lâmpadas e pontapés na Avenida Paulista, eu acredito que todos gostaríamos de ser bissexuais. É o dobro de chance de transar, de se apaixonar.

Restaria saber apenas se esses incentivos tem mesmo algum efeito e se a ciência pode nos ajudar nesse objetivo.

Talvez precisemos de instrumentos mais sofisticados como engenharia genética, molecular, física quântica, visto que igreja, repressão e violência durante milênios não foram suficientes para uma heterossexualidade absuluta.

Por quanto tempo o Vaticano ainda tentará impor essa heterossexualidade parece então diretamente proporcional a sua decadência, como no período Renascentista e a revolução de Copérnico.

Mas é também bastante provável que outra vez a Igreja consiga se recuperar ao mudar novamente de opinião.  Os  pilares fundamentais de sua doutrina, de amor, compaixão e unidade, são muito mais poderosos e importantes do que seus dogmas absurdos, que só produzem sofrimento.

Que o Papa Francisco consiga atravessar esse período com sabedoria, e conduza a sua Igreja a novos tempos.

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