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Thoureau escreveu em “A Desobediência Civil” que sob um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é também a prisão.

Talvez essa frase hoje no Paraná fosse atualizada para sob um governo que atira bombas, balas de borracha e solta os pitbulls em cima de professores, o único lugar digno para um policial paranaense justo é a prisão.

É nela que estariam os 17 que supostamente se recusaram a participar da violência que deixou mais de 170 manifestantes feridos, alguns deles em estado grave.

Para o governador Beto Richa (PSDB), black blocs, ou professores vítimas de black blocs que “provocaram” os policiais e os pitbulls e causaram um “confronto” inevitável.

Muitos já perceberam, porém, que “confronto” não é uma boa palavra para definir o que aconteceu, sendo que de um lado havia policiais com canhões de água, helicópteros, bombas, cães ferozes, balas de borracha, cassetetes e escudos, e do outro professores.

Então mesmo que o governador afirme ter visto manifestantes com pedras na mão ou garrafas (de vinagre, desinfetante ou coquetéis molotov, dependendo do viés ideológico de quem as analisa), as vítimas, em sua maioria absoluta, foram professores desarmados.

Por isso o mínimo que a decência parecia obrigar o governo e a PM a fazer era pedir desculpas – mesmo que não fossem sinceras – dizer que isso não vai se repetir – mesmo que não fosse verdade – e que 170 professores feridos pela polícia é algo inaceitável.

Mas ao invés disso o governador prefere colocar a culpa em black blocs, a porta-voz da PM paranaense Márcia Santos argumenta que “desproporcional seria usar armas letais”.

Mas não, o uso de armas letais não seria apenas desproporcional, seria um crime contra a humanidade, pelo qual o governador deveria responder ao Tribunal de Haia, e não apenas aos eleitores paranaenses.

Em 1988, o ex-governador do Paraná Álvaro Dias (na época PBMD, hoje PSDB) comandou uma ofensiva contra professores manifestantes que terminou com o pisoteamento de muitos deles pela cavalaria da PM. Foi perdoado e eleito senador.

Eram, porém, outros tempos, em que as câmeras de celulares ainda não eram comuns, e a (não) cobertura dos protestos ficava a cargo de uma mídia parceira.

Beto Richa parece que continua a acompanhar os protestos apenas por essa mídia, e talvez por isso diga coisas como “os policiais ficaram parados”, quando há várias gravações que mostram o contrário.
Mostram políciais atirando no rosto de professores, abrindo caminho entre escudos e cassetadas, entre senhoras desarmadas.

Talvez o melhor a dizer nesses casos fosse uma promessa de que os testes psicológicos para a entrada na PM seriam mais rígidos dali em diante, que aqueles policiais seriam psicopatas infiltrados, que serão identificados e presos. Ou o comandante considera aceitável atirar balas de borracha na direção de multidões, e assumir o risco de deixar um manifestante cego? O papel do Estado não é justamente proteger o ser humano? Antes de proteger o patrimônio público ou privado?

Deveria por isso afirmar que estes policiais que agem assim são uma minoria dentro da PM – mesmo que isso não seja verdade -, e que a PM e o governo se orgulham muito dos policiais que se recusaram a participar desse “confronto” tão injusto.

Mas estes hoje estariam presos por desobediência em cadeias militares, à espera de um julgamento de seus superiores que ordenaram a ação.

Que talvez possam dizer em sua defesa que na verdade aquelas imagens são falsas, como o sangue em professores e policiais, foram manipuladas por uma mídia vil, a serviço de interesses escusos.

Que a mordida de pitbull na perna do cinegrafista da Band foi um acidente, e ninguém teria culpa mesmo se ele fosse assassinado. A menos, é claro, que o cachorro fosse de um black bloc violento, de preferência com supostas ligações com parlamentares de esquerda.

Ainda não há notícias de que algum dos policiais que aparecem nas imagens agredindo professores ou jornalistas desarmados esteja preso. Só mesmo de uma suposta minoria que teria se recusado a obedecer, que faria Thoreau se orgulhar.

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