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As Jornadas de Junho não se repetirão.

Foram fruto da descoberta do poder das mídias sociais em arrastar multidões a lutar por alguma causa. Multidões que ainda não haviam se dividido de acordo com seus interesses ou os interesses do capital que assimilam como seus.

Ainda que tenham como estopim o aumento na tarifa do transporte público, eram manifestações contra o sistema, no mais amplo sentido da palavra. Fenômenos que ganharam forma muitas vezes antes de florescerem em conteúdo.

Mas o tempo passou e a indignação coletiva contra o sistema em geral, sedimentou-se em pautas específicas, apoiadas por grupos que surgiram ou se fortaleceram durante as Jornadas. E desde então vemos muito mais coletivos a erguer cartazes, ocupar o espaço público e reivindicar soluções para problemas diversos.

Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto , Frente Independente Popular, Movimento Passe Livre, Vem pra Rua…, movimentos de esquerda, direita, anarquistas ou pela intervenção militar, que são tratados pela polícia, pela Justiça e pelas famílias proprietárias da mídia – os três poderes a serviço da sustentação do sistema – de acordo com suas reivindicações e urgências.

Nos protestos conservadores, o clima é então o de um piquenique no clube. Não há necessidades urgentes, mas uma ideia pouco sofisticada dos reais problemas, da corrupção, dos mecanismos do sistema. O que há são muitas famílias, sorrisos e selfies, uma festa da democracia em que os manifestantes capricham no look verde-amarelo, inflamam-se de orgulho cívico e vibram em um conjunto pacífico com as forças de um Estado democrático.

Ou democrático até ser desafiado de verdade. Não por conservadores, mas por black blocs, traficantes, desobedientes civis e revolucionários em geral.

Conservadores não fazem revoluções, no máximo apoiam golpes, quando incitados pelos poderes a serviço do sistema.

O primeiro deles, o poder de pegar em armas, o monopólio do uso da força, foi utilizado muito recentemente (e terrivelmente), e um novo governo militar aparece apenas como a opção de personagens caricatos. O segundo poder é a Justiça, e é onde hoje se concentram as maiores esperanças golpistas. Se foram capazes de condenar tantos “petralhas” no “mensalão”, por que não podem condenar a Dilma ou o Lula? É muito difícil aceitar. Já o terceiro poder – o das famílias donas da mídia – agoniza na era da internet, não é mais a sombra do que foi. Se ainda fosse, Aécio Neves teria sido eleito como Collor. Talvez Dilma sofresse o impeachment.

Mas a classe pobre ou miserável também não era menos pobre nos governos anteriores, em que a corrupção do sistema ou as desigualdades também não eram menores. São fatos difíceis de serem manipulados por esses poderes. Valia a pena tentar ganhar as ruas.

Os grandes protestos desse mês de março pareceram então dividir os manifestantes apenas nesses dois grupos: os que apóiam o governo do PT – e vestiram vermelho para não esquecer que são de esquerda – e os que querem derrubá-lo, e vestiram verde-amarelo por tradição. Um maniqueísmo completamente oposto ao espírito das Jornadas de Junho, que exclui todas as pautas possíveis e necessárias, que atrasa o debate do que realmente importa.

Atentos a essa tendência, movimentos bem capitalizados e profissionais como o “Vem para a rua”, resolveram radicalizar no minimalismo político e “Fora Dilma!” será o grande lema das próximas passeatas pacíficas. Uma forma de unir os que querem impeachment, renúncia ou intervenção militar, argumenta um dos líderes do movimento, Rogério Chequer, em diversas oportunidades oferecidas pelas famílias donas da mídia. Em nenhuma é questionado sobre os vazamentos do Wikileaks em que aparece vinculado à Stratfor, empresa que fornece informações geopolíticas a empresas e agências governamentais dos Estados Unidos.

Combater o sistema que continua a gerar toda sorte de iniquidade, desigualdade, corrupção e violência, exige uma compreensão muito maior da realidade do que a disponível no momento, e é muito mais cômodo concentrar toda a carga emocional no ódio personalizado. Caminhar pela Av. Paulista com cartazes de Fora Dilma!, porém, é se repetir. Talvez como tragédia e em seguida como farsa.

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