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Das três coisas que nunca voltam atrás, a flecha lançada, a palavra dita e a oportunidade perdida, a terceira é a única inevitável.

Essa oportunidade eu perdi numa mesa de bar em que duas belas mulheres alcoolizadas gargalhavam e discutiam com a leveza e fluidez das belas mulheres alcoolizadas.

Eu comia uma pizza com dois amigos,  bem de frente para elas, quando disse a eles que precisava conhecê-las, e os convidei para me acompanhar.

Meu amigo ponderou que se elas quisessem nossa aproximação, enviariam sinais, caso contrário seria machismo da nossa parte,  sair sentando por ai na mesa de mulheres sozinhas e bêbadas. Fruto da sociedade patriarcal e heteronormativa em que vivemos!

Logo reconheceu o equívoco e garantiu o direito de nos aproximar de quem quisermos, desde que com delicadeza e sagacidade. Algo espontâneo, ao mesmo tempo que sutilmente planejado, dito com segurança e tranquilidade, para em seguida permanecer atento à resposta, conseguir a empatia que pode fazer com que as pessoas abram suas vidas para nos receber, ou não.  A linha tênue entre uma insistência promissora e o “pé-no-saco” ou troglodita.

Argumentei que pretendia apenas dizer que a mesa delas me pareceu muito atraente e que nela gostaríamos de sentar, caso elas tivessem alguns minutos, no momento, para nos conhecermos, se eu poderia acompanhá-las em um chopp…

“Por que?”  Ora, porque parecem pessoas que eu gostaria de conhecer!

“Por que essas duas e não aquele lindo casal da outra mesa? Admita, você é machista, patriarcal e heteronormativo!”, garantiu meu amigo com uma risada maligna.

Defendi-me dizendo que poderia me aproximar daquele casal, se me interessasse por eles como por elas.

Meu amigo garantiu que era mentira. “Mas tudo bem…”

Poderia sim! Ou não? Acabei por ficar na dúvida.

Um homem e uma mulher sozinhos numa mesa, provavelmente são um casal que quer ficar sozinho e você não vai incomodar. Tentei convencer, em vão, a nossa mesa. Meu amigo estava certo de que se tratava de uma questão de informações privilegiadas, além, é claro, de preconceito e heteronormatividade.

“Pois eu conheço aquele casal, eles vem sempre aqui. Perguntei quando sentei na mesa deles pela primeira vez, e terminei a noite na mesma cama. Aquelas duas eu também conheço, são casadas e não gostam de transar com homens, soube que tiveram uma filhinha recentemente. De posse dessas informações, em qual mesa você tentaria a sorte, caso só tivesse uma chance? “.

Pois já me parecia agora muito mais promissora uma abordagem à mesa do casal liberal do que a da tradicional família das lésbicas, caso minhas intenções fossem – como eram – terminar a noite na cama com alguém.  Isso se meu amigo dissesse a verdade, o que não era o caso.

“Na verdade, não conheço nenhum deles, mas agora você admite que é heteronormativo, patriarcal e machista?

Admiti que, provavelmente, sim.

“E que se fossem dois homens, e você, gay, também não tentaria a mesma aproximação?”

Admiti que, provavelmente, não.

Fomos então à mesa das duas mulheres, que de fato não gostavam de transar com homens, mas nos receberam com dois largos sorrisos e nos convidaram para beber com elas.  Passamos a noite entre gargalhadas e a leveza encantadora e sagaz das belas mulheres alcoolizadas.

O lindo casal permaneceu sozinho na mesa ao lado ainda por um bom tempo, mas foi embora antes de nós.  Os encontrei no Tinder no dia seguinte, como “Casal procura Ménage”, já há milhares de quilômetros de distância.

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