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 A tolerância humana à violência é bastante flexível e o número de assassinatos necessários para chocar uma sociedade, incerto.

Mas para efeitos de comparação, os 11.197 homicídios oficiais, contabilizados pela polícia brasileira nos últimos cinco anos, são mais do que a polícia dos Estados Unidos matou nos últimos 30 anos.  Já a da Islândia matou pela primeira vez ano passado.

No Brasil, o traficante é o cadáver mais recolhido nas ruas da periferia, e quem é preto, pobre, tem idade para ser traficante e é assassinado pela polícia, para a polícia e para a Justiça sempre foi traficante ou morreu por acidente. Pouquíssimos policiais foram condenados por matar favelados.

Mas foram 11.197 mortos, a maioria  em operações da polícia em comunidades pobres, contra traficantes de drogas. Um número que pode ou não parecer inadequado, dependendo do viés ideológico de quem os analisa.

A ideologia dominante, a que determina a atual – e já bastante antiga – política contra as drogas, trabalha para garantir uma justificativa a esses assassinatos, para projetar um futuro de paz que os faça parecer necessários, e eles acabam parecendo.  Muitos comemoram as chacinas e torcem por mais assassinatos, seja para “limpar” a sociedade, enfraquecer o crime organizado, impor o medo e a moral, salvar nossas crianças dos traficantes…

A ideologia simplifica a realidade até o ponto em que ela pode ser compreendida e aceita como verdade.  E assim o Estado mantém a guerra com o apoio da sociedade, que silenciosamente ou aos gritos, babando em discursos de ódio, concorda e tenta provar a ideologia, justificar os assassinatos.

Isso, porém, é logicamente impossível, pois parte de uma premissa falsa: a de que combater traficantes pode resolver a questão das drogas. E mesmo se todos os traficantes do mundo fossem presos ou assassinados, o problema não estaria nem perto de ser resolvido.

Produzir drogas não é tão difícil e basta um estudante de química ou algumas sementes.  A proibição e o risco garantem o alto preço do produto. A demanda determina a produção e ela não é afetada pela quantidade de mortos ou presos, que causam apenas uma redistribuição do mercado.  A ideologia, contudo, faz parecer que cada morte ou prisão de traficante é um a menos, quando na verdade a vaga na “indústria” permanece e não faltam candidatos a ocupá-la.

O que faltam no Brasil são vagas nos presídios, superlotados de pequenos traficantes. Vagas que sobram nos Estados Unidos, onde eles prendem mais e matam menos.  Talvez porque as penitenciárias por lá são instituições privadas que visam ao lucro em contratos de venda da mão-de-obra carcerária. Uma flexibilização do trabalho escravo que permite que os presidiários sejam ainda mais explorados do que os imigrantes. Que faz da prisão de pequenos traficantes ou usuários um ótimo negócio.

Uma lógica que pode ou não parecer perversa, dependendo do ponto de vista de quem a analisa. Mas no Brasil, a ideologia é simplesmente absurda: mata-se mais porque prender é inútil e matar é mais fácil.  Porque a polícia é treinada para uma guerra e sai dos batalhões em direção às comunidades dominadas pelo tráfico autorizada a matar e sabendo que pode morrer.

Tudo isso por nada. Todas as mortes e todo o sofrimento ocasionado por essa guerra até hoje foram absolutamente inúteis e não há registros de alguém que quis usar drogas e não encontrou quem as vendesse.  A guerra, na verdade, já foi decidida e as drogas venceram. Seu lugar na Terra está garantido pela vontade de um número mais que suficiente de nós, seres humanos, usuários ou traficantes. A legalização é apenas uma formalidade necessária. O acordo de paz que oficializa a derrota e evita que continuemos a matar ou morrer por nada.

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