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POLICIAL – Cadê a carteira doutor?

CANDIDATO – Meu senhor, eu esqueci em casa. Posso mandar alguém buscá-la, basta um telefonema.

O agente da Lei responde num tom dissimuladamente surpreso e cínico.

P- Uai, eu conheço o senhor! Confesso que não o aprecio, mas fique tranquilo, vou ser o mais justo possível nessa situação. O senhor pode sair do carro, por favor?

C- Mas para que meu amigo? Podemos resolver isso rapidamente, tenho um compromisso muito importante. 

P- É que a Lei manda que o senhor saia do carro. Está vendo isso aqui? (aponta para o distintivo policial). É a Lei.  Por favor, saia do carro.

C- Meu senhor, sejamos mais práticos, para que tanta burocracia?

P- Estamos autorizados a usar a força física, caso o senhor não saia do carro. Mas é claro que isso não será necessário, o senhor vai colaborar com o trabalho da Lei, não é mesmo? Por favor, saia do carro.  

C- Isso parece abuso de poder, meu senhor.  Podemos resolver isso aqui mesmo e garanto que será melhor para todo mundo. 

P- Saia do carro, agora!

O candidato sai do carro e tropeça, dá uma cambaleada.

C- Tudo bem seu guarda, para que não duvide da minha disposição em colaborar. Eu quero colaborar muito com o senhor. Fazer o que estiver ao meu alcance para ajudá-lo, se é que me entende…

P- Precisamos fazer um exame de bafômetro. 

C- Estou atrasado meu senhor, sejamos razoáveis…

P- É a Lei, doutor. Blitz da Lei Seca. O senhor pode assoprar aqui por favor?

C- Eu não sou obrigado a produzir provas contra mim mesmo. Também é a Lei!

P- De fato, não é, mas o senhor responderá um processo e será condenado a pagar uma multa insignificante e ganhará alguns pontos na carteira. É o procedimento padrão. Além é claro, da mídia, que vai querer detalhes… Não pega bem para um candidato dirigir bêbado. Vão perguntar por que você não fez o bafômetro se não estava bêbado? É sempre uma pergunta incômoda…

C- Meu senhor, para que tudo isso? Vamos evitar chateações…eu quero colaborar com o senhor, basta o senhor me dizer como quer que eu o ajude.  Você sabe que o Governador é o chefe da polícia? O meu querido amigo e aliado de tantos anos…

P- Se o senhor não fizer o bafômetro, vão me chamar pra depor no processo. Vou dizer que o senhor estava, aparentemente, bêbado feito um gambá. Conhece essa expressão? Acho que é lá do Sul… Vou dizer que quase não conseguia ficar de pé, falava enrolado e eu senti um bafo fedorento de whisky importado. Não era pinga, era whisky importado!  

C- O que o senhor vai ganhar com isso? Pense bem, policial. O chefe, do chefe, do chefe, do seu subcomandante é meu amigo. Então eu posso sair daqui o mais rápido possível e deixar o senhor e a sua família, muito, muito felizes, ou simplesmente sair e lembrar do seu nome. Pense bem no que é melhor para todos, senhor policial…

P- Vou dizer que tentou me subornar, que me fez ameaças…

C- Ninguém vai te ouvir. O senhor vai estar completamente desmoralizado. Vamos provar por A+B que o senhor é um merda. Quem sabe viado, traficante, integrante de milícia. Ou podemos provar também que é um herói, que merece ser promovido. O senhor me parece bastante firme, espero que também seja inteligente. Pense bem! O povo vai acreditar no que eu disser, vai esquecer, ou pode até se identificar, ver que sou alguém como eles, alguém que erra, que se arrepende dos pecados, sei lá. Agora o senhor é que pode também nunca esquecer desse dia. O dia em que mudou de vida, encontrou a fada madrinha! Desculpe não estar aqui com a vara mágica… basta um telefonema para o Governador.  

P-Achei que o Governador ainda fosse o senhor! É que eu sou anarquista. Não tenho acompanhado as eleições. Desde que participei da busca pelo Bakunin, acho que estou virando anarquista…

C- Anarquista, que interessante! Mas o senhor é polícia civil ou militar? 

P- Você não reconhece pelo uniforme? 

C- É que estou sem óculos, está escuro…

P- …e o senhor está bêbado feito um gambá..!?

C- Isso é injúria!

P- Foi uma pergunta, é que precisamos mesmo do exame de bafômetro.

C- Não vou produzir provas contra mim mesmo. O que mais você quer?

P- Só isso mesmo, fazer o meu trabalho.

C- Você vai se arrepender, tenho certeza. Mas eu posso sair daqui e fazer do senhor um comandante, quem sabe deputado!

P- Eu sou anarquista, doutor…

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