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Deus de Michelangelo - HISTORIA DO MUNDO

Gabriel é um garotinho de sete anos que viu um cachorro cair do sétimo andar e agonizar no chão até a morte.

Ele chegou ao colégio bastante triste, disse que precisava de um calmante e contou essa história para alguns adultos que aguardavam atendimento na ante-sala da direção.

Todos queriam consolá-lo de alguma forma, mas não parecia uma tarefa fácil.
“O cachorrinho foi para o Céu” era a frase mais repetida pelos adultos. E Gabriel nos olhava em seguida sem fazer perguntas, mas continuava com os olhos cheios d`água e pedia para ligar para a mãe vir buscá-lo.

Seu pedido foi atendido pela recepcionista e a conversa com a mãe durou alguns minutos. Todos que estavam na sala pararam para ouvir.

“Mãe, eu quero voltar pra casa, não consigo nem me mexer”.

Silêncio para a resposta da mãe que não ouvimos, enquanto eu me lembrava de Spinoza e de que as paixões tristes enfraquecem nossa potência de agir no mundo, são manipuladas para a dominação.

“Não consigo me distrair, quero voltar para casa ou então você pode me trazer um remedinho?”

Outro silêncio, dessa vez mais longo, e eu me perguntava até onde vai a Ciência.
“Tá bom!”, disse Gabriel ainda muito triste e passou o telefone para a recepcionista.
As duas conversaram por mais alguns minutos enquanto o menino nos contava o que se passou.

“A minha mãe vem me buscar, e vai me levar pra tomar sorvete e passear depois da aula pra ver se eu me animo. E a Jaque (nome da recepcionista) vai me dar um remedinho”.

Gabriel tomou água com açucar e foi para a aula ainda bastante triste, à espera de que o “remédio” fizesse efeito. Eu fiquei pensando no que poderia ter dito a ele ou a qualquer outra pessoa que viu um cachorrinho cair do sétimo andar e agonizar até a morte.

Não consigo dizer que ele foi para o Céu.

Não que o Céu e Deus não existam, mas acredito que essa frase talvez não diga nada.
Uma questão filosófica, que assim como as de Spinoza ou aquelas sobre os limites da Ciência, estava muito além da minha capacidade pedagógica.

Mas Gabriel já assistia à aula de matemática, enquanto eu continuava a pensar para onde foi o cachorrinho.

Não sei exatamente a imagem que veio a mente dos adultos que falavam que ele foi para o Céu, nem a representação imaginada pela criança, mas é a própria tentativa de representar esse Céu que me parece a base do equívoco.
E outra vez eu me lembrava de Spinoza.

De que “essa vida não é uma prova, nem um degrau, nem um passo no caminho, nem um ensaio, nem um prelúdio para o paraíso”.

Dizer que o cachorrinho foi para o Céu, ou em outras palavras, “foi para um lugar melhor, junto de Deus”, não seria menosprezar esse mundo? Afastar Deus desse mundo?

Por isso quem sabe eu devia ter dito que não, que o cachorrinho não foi para o Céu e sim para a terra. Para debaixo da terra, como todos até hoje sempre foram. Que é na terra que tudo se revela e se oculta, a vida se renova e todas as almas(indivíduos) são esquecidas.

“Foi assim com a vovó?”

Sim!

“Com a mamãe também vai ser?”

Sim!

Mas como dizer isso para uma criança de sete anos se mesmo grandes cientistas não conseguem compreender uma afirmação dessas sem cair num ateísmo barato e niilista?

Não sei! Vai muito além da minha capacidade pedagógica.

Mas talvez por isso os colégios religiosos sejam tantos e as aulas de Filosofia para crianças e adolescentes tão poucas.

É muito mais fácil dizer que o cachorrinho foi para o Céu.

A tristeza é manipulada para a dominação.

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