Home

Imagem

 

Segundo a diretora do Comitê Organizador Local (COL), Joana Havelange, o que tinha pra ser roubado já foi roubado e por isso o melhor a fazer agora é aproveitar a festa. Ela vai acontecer. Está mais que confirmada no investimento de muitos bilhões em nossos exércitos oficiais e qualquer movimentação mais incômoda, como disse o ex-craque, atual comentarista da Rede Globo, agente esportivo e também membro do COL, Ronaldo, será resolvida no “cacete”.

Até agora os manifestantes só mostraram paus e pedras, no máximo um coquetel molotov, sinalizadores e mataram muito menos do que a polícia. E ainda que essa semana tenha sido noticiado que o Primeiro Comando da Capital (PCC), famosa máfia paulistana, apoiará as reivindicações populares e que seus armamentos sejam muito mais pesados do que o dos Black Blocs, nada disso assusta Ronaldo, que já se demonstrou destemido em outras situações, como ao operar os joelhos ou no caso dos três travestis no motel.

Mas não se sabe ao certo até que ponto a história do PCC é verdadeira. A organização não conta com assessoria de imprensa oficial e o acesso a seus líderes é bastante difícil. Não se sabe ao certo também quem são os manifestantes contactados, já que por mais que boa parte da mídia queira o contrário, a maioria deles não segue líder algum, nem pode ser por ninguém representada.

São milhões de discursos, pautas e visões de mundo a competir por atenção. A tentar provar a legitimidade do que se reivindica muito mais num senso comum de justiça do que perante a oficiais do Estado. Assim os desabrigados pelas obras da Copa ou os que clamam por melhores condições de saúde, educação, segurança… compartilham mais a indignação com o sistema do que o modus operandi de combatê-lo. A Copa é mais um bom pretexto para colocar essas diversas questões em pauta e em uma escala maior.

Parece também servir a um pedido desesperado de socorro, como se ao mostrar ao mundo nossas mazelas, alguém pudesse nos ajudar ou ao menos envergonhássemos nossos governantes. Só que, de fato, Joana Havelange tem razão, e a única vergonha para o ladrão é ser pego. Financeiramente e em último grau, a realização da utopia revolucionária de impedir que a Copa aconteça, causaria apenas prejuízo aos investidores e seria uma espécie de vingança e não de justiça.

A vingança nunca é plena, mata a alma e a envenena, já escrevera Roberto Bolaños, o pequeno Shakespeare mexicano. E, nesse caso, além de não ser plena, parece bastante injusta, estando entre os prejudicados muita gente que nada tem a ver com os roubos e incompetências daqueles que nos governam. Gente que investiu sonhos, dinheiro e muita dedicação para que essa Copa seja a melhor possível ou simplesmente quer ir aos jogos sem incômodos e cancelamentos.

Mas sendo ou não realizada, essa Copa já é um sucesso e devemos muito à família Havelange, Ronaldo, FIFA e tantos outros que contribuíram cada um a seu modo para nos irritar o suficiente. Para que os brasileiros pareçam agora mais interessados em política e menos tolerantes à corrupção, impunidade, desigualdade, manipulações… Mais conscientes das forças necessárias para mudanças e mais engajados. Em 2007, quando o país foi escolhido pela FIFA, o clima era de um otimismo deslumbrado, alimentado pelo uso eleitoreiro do evento e a propaganda da mídia.

A Copa do Mundo sempre foi vendida como um maravilhoso investimento e por isso muitos países e cidades ainda disputam o direito de sediá-lo. Um evento que seria capaz de atrair tanto dinheiro que não só pagaria seus custos e deixaria um legado de instalações desejáveis pela população, como melhoraria nosssos aeroportos, estradas, segurança pública, ordem e progresso. Cada cidade-sede apresentou projetos maravilhosos e os orçamentos foram aprovados, mas às vésperas da Copa, o que vemos são estádios.

O transito em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, talvez esteja pior do que em 2007. Padrão FIFA não está e o deslocamento entre as cidades também não melhorou muito . O trem-bala, que pelas previsões mais otimistas seria inaugurado antes da Copa ainda está preso na burocracia de processos ambientais, indígenas, de desabrigados, de sem-terras ou então por crises que necessitaram de atenção mais urgente, corrupção ou incompetência.

Os estádios, porém, estão ficando ótimos e, mesmo inacabados, podemos ver que serão palcos padrão FIFA, e isso não é ruim. É uma pena que nossos problemas sejam tão grandes a ponto de brasileiros ainda morrerem no chão de hospitais à espera de atendimento, mas ainda assim precisávamos dos estádios. Dessas grandes áreas dentro dos grandes centros urbanos onde concentrar milhares de pessoas com certo conforto e segurança para assistirem a espetáculos de arte.

É claro que a imagem da velhinha no chão do hospital público ou de escolas caindo aos pedaços, ao lado de outra com o luxo do novo estádio do Corinthians, pode causar desconforto e indignação, deve concordar Ronaldo. Ainda assim ele está certo ao dizer que não se faz uma Copa com hospitais e sim com estádios. Isso é tão óbvio que a polêmica parece na verdade a ironia. Todos sabíamos disso já em 2007 e ainda assim a grande maioria quis a Copa. Como em breve, deve querer de novo.

Quando o Brasil joga o Mundial em outros países, por aqui é tradicionalmente quase feriado e dia de festa. Esse ano, nas cidades-sede, isso será oficial. Poderemos então estar nas ruas ou em nossas casas – caso não tenhamos sido despejados por exigência da FIFA ou pela especulação imobiliária – vestidos de Batman num protesto ou assistindo aos jogos. Podemos também escolher jogar pedras nas vitrines dos patrocinadores e de quem mais acreditarmos que mereça ou tentar ignorar a Copa completamente. As cidades ficarão cheias de gente disposta a fazer todas essas coisas.

Por isso a lição mais necessária que o Brasil pode apresentar ao mundo, muito mais do que futebol e protestos, deve ser a tolerância. O convívio pacífico entre todas as ideologias, posições políticas, etnias, religiões, identidades sexuais, cores e culturas que formam o país. Se ainda não dominamos totalmente esse ofício, em situação pior estão muitos dos nossos visitantes. Muitos sofrem com ondas bem mais fortes de racismo, xenofobia, homofobia, sexismo, fanatismo religioso, opressão e alguns estão em guerras declaradas.

Copas e Olimpíadas são por isso, acima de tudo, uma celebração da paz entre os povos e uma oportunidade de repensar o convívio com as diferenças. Como anfitrião, cabe ao Brasil promover o que tem de melhor, e talvez inspirar o mundo. Ainda que não pela paz mundial, por interesse próprio. É bastante vantajoso receber turistas e muito melhor quando eles levam de nós boas lembranças.

Anúncios

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s