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Quem caminha essa semana pela região da Sá Ferreira, em Copacabana, sê vê próximo de uma guerra iminente. Centenas de militares armados cercam cada esquina próxima a saídas do morro do Cantagalo, onde julgam estar o inimigo: o traficante de drogas.

Douglas, o dançarino do programa Esquenta, segundo a polícia, foi morto quando saia de um churrasco com traficantes, insinuando que ele próprio poderia ser um deles e por isso, de certo modo, apenas colheu o que plantou no Cantagalo.

É o tráfico quem há muito tempo justifica a maior parte da violência oficial do Estado, que aos poucos parece perder o apoio popular nessa guerra. Apesar de todo investimento e de tantos mortos nos combates, comprar droga nunca foi tão fácil.

A internet e os aplicativos de celular acabaram com a necessidade da existência de uma “boca” nas favelas. Desconheço pesquisas nessa área, mas acredito que hoje a maioria dos clientes do narcotráfico já consiga seus produtos sem nem precisar sair de casa. Por isso o que desaparece com as Unidades de Polícia Pacificadora é principalmente a “boca” e a experiência de um território com leis próprias, mas a indústria do narcotráfico talvez não precise mais desse varejo. Muitos traficantes já desceram do morro e estão espalhados por toda cidade, o que modifica completamente o combate.

Se não há mais um centro facilmente identificável – ainda que bem protegido pelos traficantes, e que fez necessário todo aparato militar das “pacificações”, a favela talvez finalmente deixe de ser um território em que a polícia se acredita autorizada pelo Estado a agir como numa área de guerra. E talvez só por isso agora conhecemos o pedreiro Amarildo e o dançarino Douglas. Ou talvez devemos esses nomes à internet e a não dependermos mais das oligarquias da mídia para obter informação.

Quase todas as pessoas que morriam nas favelas há pouco tempo, assassinadas pela polícia, eram identificadas como traficantes, tanto pela polícia quanto pela mídia. Apenas iniciais, nomes ou ficha criminal. De nenhum deles conhecíamos a família ou a história. No Rio de Janeiro foram 10.000 mortos em confrontos com a polícia entre 2001 e 2011, segundo pesquisa da OAB. Quase todos negros ou mulatos. Apenas um policial respondeu por homicídio.

Não me lembro também de muitas histórias como a do Amarildo já terem aparecido na Globo ou na Veja, mas parece que depois da internet, sempre aparecerão. Não há mais como manter o monopólio sobre a pauta do dia ou mesmo manipular a opinião pública com a força de antigamente. O chamado Quarto Poder tem se democratizado, tornando-se aos poucos uma força a que todos tem acesso, não apenas como receptores passivos, mas também produtores de conteúdo e divulgadores.

Assim os moradores das favelas passaram a contar com uma segurança que nunca tiveram. Não uma proteção oferecida pelo Estado, mas sim uma proteção contra o Estado. Muitas câmeras de segurança, na forma de telefones celulares conectados à internet, capazes de transmitir em tempo real cada um desses 10.000 assassinatos, ignorados pela mídia e banalizados pela polícia. Foi assim que conhecemos também Cláudia, a auxiliar de serviços gerais que foi arrastada até a morte por uma viatura da PM.

Contudo, a polícia, em geral e em relação a essas mortes, é também vítima. Muitos de seus soldados também morrem nos campos de batalha, enquanto generais, presidentes e empresários definem as novas armas e estratégias da corporação. O problema nesse caso parece ser a obediência canina, desenvolvida nos quarteis militares em que treinamos nossos policiais, que oferece um bom argumento aos defensores da desmilitarização da polícia. Sim, senhor! Não, senhor! Com gritinhos de entusiasmo e olhar de quem não questiona a autoridade já não parece algo muito bom.

Aos poucos percebemos que as autoridades podiam estar erradas e assim o Faraó, escolhido pelos deuses administrador absoluto, chefe do exército e sacerdote supremo, deu lugar à democracia e a seus muitos problemas. Os militares, porém, não se renderam ao sistema democrático e mantém intacta a autoridade hierárquica, de um modo quase cômico.

Talvez se os soldados tivessem poder de voto junto aos generais, muitos deles não teriam sido mortos em batalhas desnecessárias. Que de algum modo poderiam e deveriam ter sido evitadas. As maiores, porém, ainda não aconteceram e ainda podem. Os morros e periferias acordaram há pouco para o enorme poder que possuem ao se unir. Força que se manifesta num inofensivo “rolezinho” no shopping ou em aterrorizar turistas da Copa, com fogueiras em Copacabana ou no antigo prédio da Telerj.

Mestre Wilson das Neves previu que o dia em que o morro descer e não for carnaval o povo virá de cortiço, alagado e favela, sem a fantasia que sai no jornal, mas de escopeta, metralha, granada e fuzil (é a guerra civil).
O dia em que o morro descer e não for carnaval, não vai ter Copa… Mestre Wilson aconselha então que o melhor é devolver a esse povo alegria, ou todo mundo vai sambar no dia em que o morro descer e não for carnaval.

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