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Em 2001, Uma Odisséia no Espaço, vemos o instante em que o macaco descobriu a utilidade dos seus novos polegares articulados. Paleontólogos afirmam que, até aquele momento, nenhum outro animal de que já tivemos notícia havia sido capaz de segurar um osso com apenas uma das mãos e tanta habilidade.

O osso foi a primeira ferramenta, que logo se transformou em lança, roda e martelo, na medida em que os macacos ficavam mais poderosos e com mais tempo livre. Logo já estavam no topo da cadeia alimentar do seu reino e entediados. 

Para se livrar do tédio de não ter mais que pular de galho em galho atrás de alimento, mas sim apenas esperar a agricultura ou descongelar a lasanha no micro-ondas, o macaco encontrou nas ferramentas um poderoso aliado. Passou a desenvolvê-las mais e mais, para muito além de qualquer necessidade. Apenas por mais prazer, entretenimento. Criou assim instrumentos musicais, tinta guache, videogame e programas de auditório, obras bastante complexas para um macaco primitivo. 

O desenvolvimento da linguagem foi um fator decisivo no aprimoramento dessas invenções. Ao dar nome às coisas, os macacos conseguiam transmitir o que aprendiam com a experiência aos outros macacos, o que até então não parecia necessário num reino animal dominado pelo instinto e sem polegares articulados. Com um vocabulário maior, mais ferramentas para facilitar o trabalho e tempo livre, o macaco começou então a dar nome a coisas abstratas e expressar opiniões e emoções, muitas vezes incômodas a outros macacos, a quem enxergam como um espelho defeituoso, seja pela cor, religião, time de futebol, orientação sexual, posição política ou nacionalidade. Assim, muitos deles passam agora boa parte da vida a se ofender mutualmente. 

Schopenhauer, um homo sapiens bastante influente do século XIX, disse que alguns macacos experimentam “alegria maligna” ao fazer isso, o prazer na crueldade. Um problema dessa prática parece ser que a quantidade de macacos sádicos – os que gostam de causar sofrimento – é maior do que a de masoquistas – que gostam de sofrer, o que acaba por gerar conflitos e por isso os macacos vivem em guerra, seja com armas de fogo, palavras ou gestos. Organizações mundiais e tratados assinados pelos macacos tentam garantir que eles não matem uns aos outros nem se ofendam muito, e assim mantenham a “alegria maligna” sob controle. 

Humorísticos da TV aberta, comentários nos portais de notícia e redes sociais, em geral, são as válvulas de escape do macaco sedento por “alegria maligna”, que pode também procurar estádios de futebol ou passar um trote para os bombeiros. Alguns, porém, parecem mais felizes ao se afastar dessa alegria. Ao evitar causar sofrimento, seja na circunstância que for e não apenas por obrigação contratual, mas como a expressão de uma alegria mais elevada. Os macacos santos e poetas chamam essa alternativa de amor.

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