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A chegada ao Lollapalooza já impressionava. Do alto de um morro, com a vista do entardecer, descia-se em direção à multidão, que parecia ainda não saber direito aonde ir. Eram cinco grandes palcos, tendas, lounges, ringue de patinação, roda gigante, uma boate suspensa por um guindaste, tudo isso espalhado numa área equivalente a 22 campos de futebol, os 120 mil metros quadrados do autódromo de Interlagos, em São Paulo.

A cada curva se abria uma nova paisagem, só que as retas às vezes eram muito longas e demorava bastante para ir de um palco ao outro. Mas o problema maior foi mesmo não poder estar em dois lugares ao mesmo tempo e ter que fazer escolhas como Lorde ou Phoenix, Arcade Fire ou New Order. Setenta e cinco mil pessoas a fazer essas escolhas, o que congestionava alguns pontos de passagem. Nada a ponto de comprometer a experiência de estar lá. Talvez o Rock in Rio ainda seja o festival mais querido pelo público brasileiro, mas o Lollapalooza, estruturalmente, é muito melhor.

Quanto às bandas desse ano, o Lolla uniu o que há de mais aclamado pela crítica internacional nos últimos tempos com o que já está além da possibilidade de crítica. Ou como questionar a qualidade de grupos como Pixies, Nine Inch Nails, Soundgarden, New Order…

Ao todo foram 51 shows, que dão também um panorama atual dos rumos da música. A impressão que fica dos novos artistas é que os rótulos tendem a cada vez mais se misturarem, e já não há como distinguir com tanta facilidade o que é rock do que é pop, eletrônico ou jazz. As tribos parecem em processo de simbiose, numa relação mutualmente vantajosa.

Os temas também parecem caminhar numa mesma direção, em que o amor romântico perde força em relação ao amor fati, o amor ao destino e as críticas sociais são expandidas a contextos muito mais amplos, quase cósmicos, filosóficos.

Nesse novo cenário, destacam-se Lorde e Arcade Fire, que fizeram dois dos melhores shows do festival e venceram as principais categorias do Grammy nos últimos anos.

Lorde canta em Pure Heroine, seu único álbum, apresentado quase na íntegra,  uma viagem sem volta ao paraíso. A iluminação budista, ou a bem-aventurança cristã, uma experiência mística transcendental de liberdade, de destemor em relação à morte e amor à vida, não o amor romântico.  We aren’t caught up in your love affair, afirma em Royals, que lhe valeu o Grammy desse ano de melhor música.

A ideia está muito longe de ser inédita, mas poucas vezes foi realizada tão bem por alguém tão jovem. Lorde tem 17 anos e canta o que o Led Zeppelin cantou nos icônicos Led Zeppelin IV e Physical Graffiti, ainda que numa outra abordagem.  Lorde é mais singela e direta. Se suas metáforas não alcançam ainda a profundidade de Kashmir ou Stairway to Heaven, compensam em delicadeza.  As florestas não ecoam risadas, mas suas costelas doem de tanto gargalhar, na beira da piscina, onde tudo o que existe é bom e estamos todos no mesmo time. Com essa frase ela encerrou o show, sob uma chuva de papel picado e em meio a um transe coletivo.

Já o Arcade Fire parece cantar, entre muitas outras coisas, principalmente Walter Benjamin. É impressionante a mistura entre Filosofia e delírio proposta pela banda canadense. Seu último álbum, Reflekctor, é uma expressão dionisíaca do êxtase, muito bem realizada. Mas sua obra-prima continua sendo The Suburbs, que também lhe valeu o Grammy. Nela o que está em jogo é o progresso, o pensamento preso à superfície do cálculo e como erguemos shopping centers mortos sobre montanhas e montanhas de destroços de civilização, levados por uma tempestade fora de controle. Essa tempestade, como disse Benjamin, chama-se progresso.

A música, ainda assim, progride, incorpora elementos e se diversifica com Arcade Fire, Lorde, Imagine Dragons, Cage the Elephant, Julian Casablancas e tantos outros que não estiveram por aqui, deixou claro o Lollapalooza. Mas assim como os rótulos de gêneros musicais se diluíram uns nos outros, parece não ser mais possível identificar seus movimentos, como no passado. Grunge, punk, gótico, emo, hippie, progressivo, tudo se mistura no selo de indie, marca dessa geração que cresceu ao som de Radiohead. O Lollapalooza é assim a expressão mais clara desse caminho sem fim, em que o progresso na verdade não se trata de nos levar a um lugar melhor, mas sim da impossibilidade de permanecer,  um recorte do momento, que em seguida já passou. Vai deixar saudades.

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