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Cerca de quinze adolescentes negros foram detidos hoje a tarde na Lagoa Rodrigo de Freitas, no Rio de Janeiro. Perguntei para um policial o que estava acontecendo e ele me disse “nada”, virou as costas e entrou na viatura. Perguntei para outro e ele me disse “Por que, algum deles é teu parente?”. Respondi que não sabia e ele então me mandou cuidar da minha vida. Insisti de que era um direito saber por que aquelas pessoas estavam sendo presas e um outro policial gritou de longe “porque é tudo bandido safado!”. Há várias testemunhas. 

Uma delas é um vendedor de coco, que presenciou a abordagem e dava razão aos policiais. “Crianças? Essas crianças te roubam e depois dão um tiro na tua cara”. 

Perguntei se ele havia visto alguma coisa e ele disse que hoje não. Tentei então outra vez contato com a polícia e um PM mais educado finalmente se dispôs a me explicar a situação, depois que eu falei que era jornalista e iria publicar que a polícia simplesmente se recusou a dar qualquer informação. 
“Eles tavam no ônibus 476, esse bando todo e tão sempre tacando o terror. Descem do ônibus aqui só pra assaltar”.

Perguntei se havia alguma prova e ele me disse que não. Que eles na verdade não estavam sendo presos, mas sim apenas colocados no ônibus-camburão para serem encaminhados a abrigos. “Os que tem pais vão para casa”. 

Tentei falar com algum dos garotos e fui intimidado pelas metralhadoras apontadas para mim e para eles. Mas acredito que nesse caso não seria mesmo necessário ouvir os dois lados. A acusação era informal e as únicas evidências encontradas pelos policiais foram a cor da pele e as roupas rasgadas. O crime de fato consumado foi praticado pelo PM, que disse “É tudo bandido safado”, sem ter provas. Chama-se “Crime de Injúria”, previsto no artigo 140 do código penal, e consiste em atribuir a alguém qualidade negativa que ofenda a sua honra, dignidade ou decoro. A pena é de um a seis meses de detenção ou multa. 

É claro que se trata de um crime menor perto dos roubos, estupros e assassinatos de que a polícia tenta nos proteger ao impedir a livre circulação de grupos de menores negros e mal vestidos em zonas nobres da cidade. Só acho que isso também já seria crime, de racismo. Ou se algum neto negro do Joaquim Barbosa andasse de ônibus e voltasse da praia junto com os outros adolescentes, também teria sido levado no ônibus-camburão até a casa da família e nada aconteceria?

O racismo parece ser exercido muito mais em cima de pobres. Nenhum desses adolescentes provavelmente vai processar o policial que os chamou de “tudo bandido safado”. Muitos não vão nem entender de onde veio todo esse ódio. Alguns pareciam ter menos de 12 anos, alguns poderiam ser bandidos – “marginaizinhos”, como chama a Rachel Sheherazade. 

O discurso da direita, reproduzido por Sheherazade, parece cada vez mais o de um apartheid para hipócritas. Para gente incapaz de assumir suas tendências fascistas e que gosta de se ver como um cidadão de bem em um sistema justo. Prega uma higienização social, pautada na vigilância e segregação de grupos que ameaçam o sistema ou expõe as suas falhas. 

A desigualdade e a pobreza são as duas mais evidentes. Mas um apartamento na Lagoa para o período da Copa ser alugado por R$130.000,000, não causa tanto clamor popular. Na relação entre a riqueza excessiva, a pobreza e a criminalidade, o combate fascista se detém apenas ao terceiro ponto. É o discurso mais fácil, rasteiro e com a promessa mais rápida, que nunca se realiza. Por isso se mantém.

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