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Nietzsche disse que o tempo é um círculo e não uma linha contínua em que caminhamos sempre do passado para o futuro. O passado assim é infinito, tanto quanto o futuro. Duas estradas curvas e infinitas que se encontram sempre no “Instante”.

Talvez seja impossível representar racionalmente o que isso significa. O infinito parece que não cabe nas nossas ideias e mesmo o paraíso eterno das religiões é inimaginável. Tanto quanto uma natureza em que o Big Bang seja uma constante.

Mas a ideia de Nietzsche do Eterno Retorno parece então cientificamente e talvez até religiosamente razoável. Contudo, traz o problema de que em um universo assim, infinito no tempo, tudo o que poderia acontecer, de fato, já aconteceu. O passado não tem fim nem começo. “E a gente de tanto se repetir não vai notar… que a gente de tanto se repetir não vai notar…”, resume o refrão de “Domingo”, dos Cavaleiros Marginais.

Acredito ter visto uma evidência disso assistindo ao Big Brother. De repente fiquei com a impressão de que aquela história seria repetida para sempre e cedo ou tarde mesmo os personagens e suas conversas se repetiriam. A miss desse programa talvez já fosse a mesma de algum outro e a gente não percebesse.

Nietzsche perguntava se nos agradaria viver essa mesma vida ainda infinitas vezes e eu pergunto quem será a miss do BBB 3.000.000? Quando as possibilidades de ser alguém absolutamente único entrarão em colapso com o Eterno Retorno no infinito e veremos que a miss é a mesma? Como uma alma que reencarna num outro mundo ou uma combinação aleatória de fatores que, nas probabilidades do infinito, para sempre terão de se repetir. Na verdade, a pergunta mais adequada talvez seja o que temos de tão único que nos garanta que jamais existirá alguém igual a nós?

Para alguns empiristas, uma defesa possível dessa condição singular parece a de que nossos amigos são únicos, assim como nossos inimigos ou as impressões digitais. Porém nossa experiência no tempo e no espaço é limitada demais para aceitá-la. Já outros podem dizer que é o observador quem modifica o observado e é quando nós mesmos mudamos que os outros nos parecem diferentes. Mas então até quando mudaremos e no que queremos nos transformar ou estamos nos transformando, pergunta Nietzsche. Qual ser humano acreditamos ser o melhor, pergunta o Big Brother.

O programa, no entanto, é uma simulação mal-acabada do Deus que morre em Nietzsche. Um Deus preso a valores e que observa, julga e distribui prêmios e castigos de acordo com o que lhe agrada. É isso o que o Big Brother oferece ao público. A voz da maioria simula a voz desse Deus morto e é à maioria que o participante precisa agradar, como o religioso a seu Deus. Ele se vê também observado o tempo inteiro, ainda que tenha no pensamento um esconderijo inviolável, podendo assim tentar enganar o público. Calcular ações a simular o que acredita serem virtudes e sentimentos nobres. Algo impossível em relação ao Deus de Nietzsche, a quem ninguém enganava. As pessoas é que eram enganadas e por isso mataram Deus.

É provável que no BBB 3.000.000 ainda nenhum aparelho seja capaz de apanhar os pensamentos dos participantes ou se relacionar com eles do mesmo modo que fazia o Deus morto. Mais difícil ainda que leia nas entrelinhas do silêncio de cada um. Caso consiga, talvez revele que a miss, de fato, é a mesma. Ou quem sabe não encontre miss alguma. Descubra que na verdade não há nada de único nos seus pensamentos que lhe garanta uma individualidade e encontre em todos os outros os mesmos, traduzidos em diferentes linguagens. As mesmas máquinas desejantes, batizadas por Deleuze. Sempre desmontáveis, reversíveis, conectáveis, com múltiplas entradas e saídas. Purgatórios, infernos e paraísos. Todas as formas de um mesmo princípio criador de realidades, sem centro, início ou fim e nenhum juiz além de nós mesmos.

Na ausência de Deus, para julgar a vida alheia, criamos o Big Brother.

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