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Trabalho no Colégio de Aplicação da UFRJ e essa semana dois representantes da Escola de Vôlei Bernardinho estiveram por lá para oferecer vagas e descontos aos alunos interessados. Ao menos foi isso o que disseram à direção, que autorizou a entrada.

Num primeiro momento, distribuíram um formulário para as crianças de 7 a 12 anos, alunos do Ensino Fundamental I, com perguntas sobre seus hábitos e atividades. No dia seguinte voltaram com uma cartinha, dizendo que o aluno havia sido convocado pelo Bernardinho para ingressar na Escola.

Até aí quase tudo bem, ainda que o termo “convocação” soe um pouco oportunista, tratando-se de um técnico da Seleção Brasileira de Vôlei. O problema foi depois explicar para crianças tão pequenas porque algumas foram escolhidas e outras não. E quase todas foram escolhidas.

Uma menina de 8 anos que ficou de fora me perguntou se era porque ela é gorda. Um garotinho de 7 quase passou mal de tanto chorar. Já entre os selecionados, o clima era de festa. Vários queriam ligar para os pais e contar sobre a convocação.

Não sei qual foi o método utilizado no processo seletivo, mas seja qual for não se justifica. São crianças muito pequenas, que não pediram para participar disso. Os representantes do Bernardinho que foram até elas e que enganaram a direção. Disseram que todas que demonstrassem interesse poderiam participar. O que não disseram é que iriam medir esse interesse.

Acredito que, de fato, não mediram. Que o método utilizado foi o sorteio e que eles nem leram o que foi escrito pelas crianças. Eram mais de 400 e eles voltaram logo no dia seguinte. Acredito que na verdade o que precisavam é deixar algumas de fora para que as outras se sentissem especiais. O que realmente aconteceu.

Ao chegar em casa as crianças escolhidas vão mostrar a cartinha de convocação e contar para os pais que foram selecionadas. É bem diferente de dizer que todas ganharam o desconto. E a equipe do Bernardinho sabe disso. É um marketing bastante inteligente e cruel.

À menina que me perguntou se não foi escolhida por ser gorda, eu disse que não, que aquilo foi um engano e que eles entenderam que ela não tinha interesse. “Mas eu falei pra eles que eu queria muito”, ela me disse.

Falei isso para a direção do colégio que cobrou explicações dos representantes do Bernardinho. Eles não souberam muito justificar como passou despercebido o interesse daquela e de outras crianças, mas acabaram aceitando todas. E com isso, perderam muitas delas. Várias cartinhas de convocação, antes tratadas com todo cuidado, viraram aviõezinhos. Não eram mais o símbolo da escolha, e era isso o que as crianças queriam: saber que foram escolhidas. Talvez muito mais do que jogar vôlei.

Alguns então podem acreditar que isso é natural, que a competição é parte do que nos faz humanos, ou seja, a nós é natural querer ser melhor do que o outro e não apenas o melhor possível. E talvez por essas e outras que Brecht já nos dizia que nada deve parecer natural. E que os antropólogos nos contam fascinados experiências em sociedades ainda não dominadas pela lógica de mercado.

Em um famoso caso, é proposto a crianças de uma tribo africana que apostem uma corrida. A mais veloz receberá o prêmio de uma cesta de doces. As crianças então dão as mãos e correm juntas até a linha de chegada. Afinal, como poderia apenas uma ficar feliz por comer os doces, enquanto todas as outras estariam tristes pela derrota?

É uma lógica diferente, absurda ao esporte como, em geral, o conhecemos. Contudo, o problema no caso do Bernardinho não é o esporte e sim o oportunismo. Aproveitar-se da lógica da competição, que governa tanto o nosso esporte quanto nossa sociedade, para enganar crianças e ganhar mais dinheiro. Talvez, na verdade, somos todos enganados há muito tempo.

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