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ImagemEssa última dos policiais no helicóptero metralhando a favela me fez lembrar de uma outra ação da polícia que foi transmitida ao vivo na TV e aparecia um bando de gente fugindo, alguns com fuzis e outros sendo baleados. Na época o governo comemorava a conquista de territórios rebeldes e a Veja – na figura de Reinaldo Azevedo – assassinava o pensamento de Kant tentando justificar uma guerra contra o tráfico de drogas.

Para o puro-sangue reacionário, a universalização do ato como fundamento ético, base do imperativo categórico kantiano, aplica-se a fumar um baseado. Em outras palavras, diz que quando você compra substâncias que o Estado não vende oficialmente, ajuda a matar criancinhas e que pode existir um mundo em que os “playboys da zona sul” deixem de “olhar apenas para o próprio umbigo” e assumam a responsabilidade pela guerra nos subúrbios.

Nesse mundo ideal, em nome do bem comum e do fim do narcotráfico, todas as pessoas deixariam de fumar maconha. Realmente não podemos negar que isso seja uma possibilidade, assim como os universos paralelos infinitos, no qual em algum deles certamente o Keith Richards seria o Papa.

O que o Azevedo e seus partidários desconsideram e que muitos já perceberam é que para acabar com esse poder paralelo dos traficantes (ao menos no argumento em relação à maconha) bastaria ao governo permitir o plantio. Descobriram que é a natureza quem oferece todas as substâncias e que é absurdo aceitar que seja o Estado quem lhe diga o que você pode ou não cultivar no quintal da sua casa e para o seu próprio consumo.

Muitos já perceberam também que não interessa se faz mal. Que leite condensado é um veneno que vicia milhões de obesos todo ano e ainda assim adoramos a Nestlé. Que o álcool mata mais do que todas as outras drogas e que o que está em jogo é o dinheiro de uma das maiores indústrias do mundo. Alguns de seus produtos proibidos custam mais do que o ouro. Legalizados poderiam valer o mesmo que o açúcar.

Livre de impostos, esse dinheiro hoje se movimenta na ilegalidade e não sabemos exatamente onde ele está. Provavelmente em haréns, palácios e infiltrado na política, servindo para assegurar que a legalização não aconteça. Com certeza também em muitas armas, necessárias para controlar um território sem lei. Enquanto isso a população pobre se esconde dos tiros que vem de todos os lados e o narcotráfico segue a justificar a violência oficial do Estado. Esse sim responsável direto pela morte de muitos inocentes. E de alguns a quem julga culpados.

Porém ao aceitarmos a lógica de que enquanto houver demanda haverá quem venda, a perseguição aos traficantes revela sua face absurda. A solução não pode estar em mata-los ou prende-los, se eles são sempre substituídos e o tráfico encontra novos caminhos. A repressão pode ter apenas um efeito anestésico, ao dificultar o processo e aumentar o preço, mas parece ser vendida como cura. Como um remédio amargo e milagroso, administrado somente agora porque o governo atual é muito melhor que os anteriores e por isso precisa se reeleger, ou todo o esforço será em vão. 

Até hoje sempre foi. Uma política que de tão irracional não parece mais apenas um equívoco. Quem quer usar drogas continua conseguindo sem maiores dificuldades (exceto financeiras, o que os impostos também poderiam garantir), então não há argumentos que justifiquem tanto tempo, tanto dinheiro gasto e tantas mortes e praticamente nenhum resultado. É por isso que a legalização deve se estabelecer acima de tudo como uma causa humanitária. Uma causa motivada pela compaixão e cujo efeito imediato seria a quebra do círculo de repressão inútil, violência e ilusão que a tantos causa sofrimento. 

Enquanto a hipocrisia e a ilusão não forem vencidas, o efeito anestésico da repressão sempre se perderá sem que a doença em si seja tratada. Na verdade a doença não existe e esse tempo todo lutamos contra um inimigo imaginário. Vício, violência, destruição do próprio corpo, nada tem a ver com a repressão. O ato de reprimir vai contra apenas a liberdade e nesse caso jamais poderemos restringi-la, somente atrasá-la. A longo prazo a história e a dialética sempre provam impossível proibir o que não julgamos estritamente necessário. É essa a diferença entre não matar, não roubar e não plantar um pé de maconha, óbvia demais para ser negada inclusive no imperativo categórico mal digerido pela Veja. 

A violência do Estado assim funciona apenas como um pedido para que os traficantes sofistiquem os seus métodos. Nada de deboche com fuzil na mão andando pela rua. Nada de se achar o dono da favela e desafiar o poder oficial. Ajam, por favor, com mais diplomacia, respeitem a concorrência e às vezes até se escondam, quando aparecer um policial honesto. No mais, sigam tranquilos. A guerra na verdade já foi decidida e as drogas venceram. Seu lugar na Terra está garantido na vontade de um número mais que suficiente de nós, seres humanos, usuários ou comerciantes. A legalização é apenas uma formalidade necessária, o acordo de paz que oficializa a derrota.

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