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“Camaro Amarelo” foi considerada no Faustão a composição brasileira do ano e temos de reconhecer seus méritos. Não que ela apresente um elevado valor artístico ou traços sublimes de uma verdade que se revela ao gênio do artista e encontra forma apenas na expressão poética ou na melodia. Mas talvez ao atingir os limites da simplificação de um espectro de verdade hedonista e dogmática muito presente. O famoso fundo do poço. 

Em linhas diretas, a canção propõe maximizar o gozo e desaparecer completamente com qualquer esforço necessário para alcançá-lo. Teologia da prosperidade devidamente apresentada na figura arquetípica do “véio”, que pode representar um progenitor de bastantes posses ou mesmo o Pai Celestial. Ambos dariam conta perfeitamente da solução de todos os problemas, que no caso nada representam além das angústias de um desejo maior que as suas possibilidades no presente. “E aí veio a herança do meu véio e resolveu os meus problemas, minha situação. Do dia pra noite fiquei rico, tô na grife, tô bonito, tô andando igual patrão” (MUNHOZ & MARIANO, 2013).

A partir dessa “benção”, o sujeito da canção alcança o seu Nirvana existencial às avessas, com fartura e muita sensualidade. A alegoria da classe emergente e resignada pelas privações já vencidas na escalada social é encerrada então num refrão quase tântrico. “Agora eu fiquei doce, doce, doce. Igual caramelo…”. 

Porém as implicações filosóficas mais marcantes da canção devem ser compreendidas melhor apenas sob a ótica do biopoder, de que trata Peter Pál Pelbart no texto Vida e Morte em Contexto de Dominação Biopolítca. Ele nos apresenta um poder que não visa mais a repressão, apontada por Freud como o berço da civilização. Trata-se agora de se “encarregar de toda a vida, intensifica-la, otimizá-la”, na base da incitação, do reforço e da vigilância, visando a otimização das forças vitais que ele submete.

“Daí também nossa extrema dificuldade em resistir, já mal sabemos onde está o poder e onde estamos nós, o que ele nos dita e o que dele queremos, nós próprios nos encarregamos de administrar nosso controle, e o próprio desejo se vê inteiramente capturado nessa dinâmica anônima. Nunca o poder chegou tão longe e tão fundo no cerne da subjetividade e da própria vida (PAULBERT)”

Paulbert traz em seguida a imagem de um muçulmano, descrito por Agamben, como exemplo daquele que se submete sem reserva à vontade divina, situando-se assim num meio termo entre a vida e a morte, entre o humano e o inumano, tão cansado dessa vida esvaziada e enfraquecida que já é quase incapaz de sofrer. Mas que também pode apenas abandonar parcialmente essa terra. Então sobrevive. Reduzido “ao consumo e ao hedonismo de massa, a medicalização da existência, em suma, a abordagem biológica da vida numa escala ampliada, mesmo quando promovida num contexto de luxo e de sofisticação biotecnológica.”

Para Agamben e Palbert, a condição de sobrevivente, de muçulmano, é um efeito generalizado do biopoder. O que fez de “Camaro Amarelo” esse hino contemporâneo. A síntese perfeita da tirania do prazer voluntariamente abraçada. Um prazer porém cuja imediaticidade – já que se esgota no próprio gozo sensorial – traz a necessidade um tanto incomoda de um contínuo esforço para renovar sua validade. Esforço esse que o artista sertanejo universitário faz desaparecer na sua poesia coreografada, oferecendo uma espécie de catarse. O sujeito da canção finalmente pode gozar de uma gorda saúde dominante, como chamou Deleuze ao diferenciá-la da estética existencial de Foucault. 

“Não hesitamos em chama-lo, mesmo nas condições moduláveis da coerção contemporânea, de um corpo fascista – diante do modelo inalcançável, boa parcela da população é jogada numa condição de inferioridade sub-humana (…) Estamos às voltas, em todo caso, com o registro da vida biologizada. Reduzidos ao mero corpo, do corpo excitável ao corpo manipulável, do corpo espetáculo ao corpo automodulável, é o domínio da vida nua. Continuamos no domínio da sobrevida, da produção maciça de “sobreviventes” no sentido amplo do termo. (PAULBERT)”

O resgate desses sobreviventes pelo “véio”, no sentido de progenitor, é um privilégio ainda para poucos , mas as igrejas assumem então a função de democratizar, tornar palpável e possível essa gorda saúde, na figura do Pai Eterno. A teologia da prosperidade unida à economia de mercado alivia às tensões e o desespero do sobrevivente. Em troca ainda cobra ofertas e obediência, e é portanto menos livre que o ideal simbólico alcançado na canção, mas talvez atinja o ponto de ser também plenamente compreendida no seu ideal: sobreviva, com um pouco de prazer para o dia e um pouco de prazer para a noite, tenha agradáveis sonhos, respeite as leis com muita fé e aguente firme, sobreviva! Deus lhe dará um camaro amarelo.

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